quinta-feira, 7 de maio de 2009

A respeito do lançamento do livro “Outros Silêncios” de José Geraldo Neres.




Este começo de noite foi muito agradável. Compareci ao lançamento do livro de José Geraldo Neres, “Outros silêncios”, na livraria Alpharrábio, em Santo André – SP. Mais que um lançamento, foi a apresentação do livro através da poeta Dalila Teles Veras aos amigos do escritor e de uma certa maneira à comunidade onde ele mora e milita culturalmente, o Grande ABC. Pensando em comunidade como algo um pouco maior que a limitação geográfica, pois havia pessoas de quase todos os municípios das Sete Cidades, e restritivo no sentido que este livro é para pessoas que vêem a poesia como ferramenta de extrair o sensível de nossos cérebros e corpos. É muita coragem se lançar um livro de poemas no mundo utilitarista em que vivemos, a poesia sempre soará como ruído incompreensível aos ouvidos dos que só ouvem com prazer o tilintar das moedas. A poesia não é e nem deve ser salvacionista, mas poderá ser redentora à medida que é ainda a única coisa que resiste a ter um valor monetário.


Hoje vi um poema ser dançado ao som de atabaque, pau de chuva, e todo o som que não ouvimos, mas que está presente, o som do acaso. Além de é claro, o som da voz humana, o primeiro e primordial instrumento musical. A professora e dançarina Kiusam de Oliveira deu corporeidade a um poema, ao mesmo tempo que chama Neres de homem-água, pede proteção a Oxum, a mãe das águas, exorta o feminino que essa água quer dizer. A poesia é o feminino das águas torrenciais que existe na poética de José Geraldo Neres, que poderia ser homem-chuva, homem-rio (e todas as suas margens), homem-barro (e seus tijolos e potes), pois o barro é a mistura da terra fértil com a água imprescindível.

Esta mesma Kiusam, dá um depoimento de uma situação de catarse, a partir do exercício de leitura com seus alunos, fala da palavra empoderamento, cunhada tão sabiamente por Paulo Freire, da possibilidade do poema fazer pessoas em situação de baixa auto-estima, se libertarem das suas amarras corporais e mentais, e se verem como realmente são, seres humanos. Ai se dá a maior glória de um poeta, a de ser alijado da propriedade de seu trabalho, é quando o leitor se espelha em sua obra, leitor que passa a ser também Narciso que se espreita.

A partir de hoje Rádi Oliveira, poeta de Diadema, passou a ter uma voz, quem eu só conhecia pela escrita, criou corporeidade em uma voz suave e acolhedora. Rádi cantou um poema de Castro Alves, “Oh! Bendito o que semeia livros”, que nunca imaginei tão melodioso. Nunca mais lerei este poema sem me vir a afável melodia. Para dar provas de que cada verso da poesia de Neres é já em si um poema, o ator Carlos Lotto fez um exercício, de copiar vários primeiros versos, que lidos juntos formaram um novo e inédito poema.

Voltei para casa com uma boa sensação. A incomum sensação de que é válido este exercício permanente de se limar contra o verso. De que somos diamante a ser lapidado. Pérola que se cria na ostra incomodada pela palavra.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Na luta pela sobrevivência à qualquer preço, a maior vítima é o belo.



Recebi um e-mail com a reprodução “ficha” policial dos tempos da ditadura militar, da ministra Dilma Rousseff, sem nenhuma explicação maior, somente o fac simile e a palavra “companheira” seguida de uma interrogação (?). Apesar de minha letargia política dos últimos anos, estou em uma fase de digestão ideológica, entre a preguiça matuta e o desejo de ver “o circo pegar fogo”; respondi o e-mail como faço com todos os textos “maravilhosos” de advento ou amor de deus, que cristãos inadvertidos costumam me mandar. Em meu e-mail disse do orgulho que sentia daquela pessoa retratada na ficha policial, do fato de que alguns se acomodaram a realidade nova e outros lutaram contra a ditadura. Falei de uns boletins de ocorrência contra mim que tenho guardados , quem sabe um dia não me torne uma pessoa alvejada pela mídia, embora não tenha a pretensão de assumir qualquer cargo político, o último que verguei foi o de morumbixaba da Taba de Corumbê, ao qual renunciei à primeira contestação de minha “autoridade”. É claro que fiz o que queria, já estava farto de ser o “responsável”.

A resposta do missivista cibernáltico, foi: Será? De que adiantou tanta “valentia”. Ao que respondi: É. Tenho orgulho sim. Não duvide de meu orgulho, é meu e de mais ninguém. Sei que é uma coisa besta, nós fomos derrotados e a ditadura caiu de podre, mas nunca duvidem de nossa fé em que fazíamos, depois morreu, esmoreceu, como tudo através do tempo fica fraco e incômodo, mas acho que só o Gabeira mesmo ficou com vergonha do que fez (vergonha com dividendo políticos e midiáticos). Nem sei a quantas anda a política de Brasília, o Brasil vive em seus dois séculos de existência, pois surgiu oficialmente em 1808, sempre o mais do mesmo. A democracia representativa baseada na opinião pública, forjada pelos meios de comunicação de massa que estão nas mãos das grandes corporações, me enoja. Este cinismo sem limite que virou nosso país, me deixa com muito pouca vontade de militar politicamente, o pior é que nem tenho mais minha barba para por de molho. Branqueou de um jeito, que meu visual revolucionário se esmoreceu, minha pessoa ia parecer Papai Noel ao invés de Chê Guevara: barba branca e barriga saliente. O Chê é que foi feliz, nunca vai ficar velho, nunca vai passar por crises de autocrítica, nem vai precisar tomar remédio para a pressão de doze em doze horas.

O pessoal para garantir a eleição do “Zé Serra”, que lamentavelmente já está quase dada, está passando dos limites, acredito que deveríamos ter uma postura republicana e de urbanidade diante da feitura da política. O falecido Serjão deixou suas marcas na política brasileira, e infelizmente tem muito “companheiro” também adotando suas práticas. Já dizia Ghandi, olho por olho e a humanidade toda ficará cega. Cinismo por cinismo, e ninguém mais vai acreditar em ninguém em nossa “amada” Pindorama. Houve uma lei de Anistia em nosso país, pelo bem ou pelo mal, não existe crime algum em ter sido terrorista. Palavra que hoje tem uma conotação diferente daquela época. Depois do onze de setembro americano, um título que carregávamos jovens com orgulho, hoje é uma palavra feia. É certo que o onze de setembro chileno a imprensa mundial esqueceu logo, será que é por que os “terroristas” neste caso foram os americanos? Imagino que se houvesse fichamento policial no Império Romano, teríamos a ficha criminal de Jesus Cristo, além de uma relíquia sagrada que seria a prova definitiva de sua existência, também apareceriam as palavras: agitador, terrorista, criador de caso, inimigo do Império. É muito complicado hoje, com nosso conforto todo, pensar naqueles tempos. Em relação aos boletins de ocorrência contra mim, que tenho guardado, quem sabe um dia viro história também. Embora não pretenda ser candidato a nada. Ao meu amigo virtual deixo as palavras de Gianfrancesco Guanieri, "...valentia, posso ensinar..." “mas liberdade só posso esperar...”

E o que esta arenga toda tem a haver com poesia? Bem o poeta e amigo Cláudio Willer, diz que toda a poesia é uma transgressão política, é um ato de rebelião. A poesia é desbocada, é aquela pessoa que nos mata de vergonha nas festas a nos jogar nossas indiscrições na cara.

Quantos poetas não foram presos e processados: Baudelaire teve que censurar suas Flores do Mal, Rimbaud foi processado por sua opção sexual, ou seu amor adolescente por Verlaine. Oscar Wilde se tornou persona nom grata na Inglaterra vitoriana. E minha infeliz memória não me permite mais e mais exemplos, que encheriam a crônica. Hoje não somos mais presos, Hakim Bey já nos afirma tão inúteis, que nem perigo para a sociedade não somos mais, o terrorismo que ele nos conclama é o terrorismo poético. Nem sei se em face ao cinismo que abunda no mundo, qualquer terrorismo realmente faça efeito, quer com homens bomba ou poemas bomba. Em tempo de Internet, podemos falar o que quisermos, só corremos o risco de não sermos ouvidos ou levados à sério.

Minha maior crítica às autoridades políticas é sua total insensibilidade em face à arte. Dilma, Serra, e seja lá quem for, nunca derramará uma lágrima ao ser atingido por um poema. No mundo tecnocrático em que vivemos, nosso passado glorioso ou odioso, não faz a menor diferença, todos somos iguais diante da mesmice, da ignorância, do cinismo, do vazio ideológico. Vazio ideológico não pelo esgotamento, mas pela incapacidade da compaixão. Vemos o outro como um obstáculo, e não um semelhante.
Diante disso todas as certezas se dissolvem.

Na luta pela sobrevivência à qualquer preço, a maior vítima é o belo. Sorte a poesia não se poder atribuir qualquer valor pecuniário.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

A Cultura no Grande ABC.


Muito relevante as reportagens da semana passada veiculadas no Jornal Diário do Grande ABC a respeito das promessas de campanha na área da Cultura, o jornal está de parabéns pela iniciativa, que continue a cobrança. O primeiro sintoma perceptível nas reportagens é que quem fez os programas de governo não estava interado do que é e como funciona a Cultura de cada cidade. Percebe-se uma ausência total de discussões com os produtores culturais, que em muitos casos tem propostas de trabalho, que nunca serão ouvidas. É nítido que não se espera e ou não se quer a participação dos artistas da cidade no processo de produção e da educação não formal. Não é estranho ouvir quando se procura os setores de Cultura de qualquer de uma de nossas sete cidades, “é que eu não sou da cidade e não sei ainda o que esta acontecendo”, é claro que serão precisos quatro anos para que esta pessoa se ache. Teixeira Coelho nos afirma que sem a participação da sociedade civil não há Cultura.

Em nenhum momento fala-se de criação de um cadastro de produtores, de orientação à profissionalização dos mesmos, da intermediação em leis de incentivo à Cultura, é mais fácil chorar a falta de dinheiro, do que buscar onde ele está. Os partidos tem relações com deputados federais e estaduais, podemos conversar com eles fora da época da eleição (ou deveríamos). A Cultura é realizada por iluminados que muitas vezes só enxergam o seguimento do qual são oriundos, isto quando tem alguma relação com a Cultura. Infelizmente é comum cargos no setores de Cultura das cidade serem prêmios de consolação, barganhas políticas ou ainda castigo para pessoas que não são bem vindas em setores mais “importantes”. A estes “indesejáveis” muitas vezes, são atribuídas funções que nas mãos certas, seriam de grande valia para a cultura das Cidades.

Por último percebemos claramente que Cultura não tem a menor importância para nossos alcaides, tirando a retórica do discurso. A cultura não tem grande valor na barganha política, não traz votos expressivos, e é visto pelos setores de finanças como um dinheiro jogado fora. O que percebemos em tempo de “crise”, é uma tentativa, na socialização da miséria, que se concretizará, quando o Secretário de Mauá, pessoa que tenho muita estima, mas que se equivoca, ao falar de usar o dinheiro do FAC, que mal dá para o troco, e que deveria ir todo para os artistas, deveria ser usado na manutenção de próprios públicos. A cidade de Mauá é uma das poucas a ter uma lei de fomento, que embora seja pouco, pelo menos vai para os artistas. Corre se o risco do cobertor que não cobre nem os pés, ser tirado de nós.

Vídeo - Escritor Sacolinha no Programa do Jô Soares

Assista a entrevista que o Sacolinha concedeu ao Programa do Jô, clicando nos links abaixo.
Não é vírus. Caso tenha alguma dúvida, vá até o site do youtube e digite: Sacolinha no Jô.

Parte 1
http://www.youtube.com/watch?v=qZhNkT2nJNw

Parte 2
http://www.youtube.com/watch?v=iT3z93Jkk1c

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Escrever é meu maior vício.


Um dia me fizeram uma pergunta que se tornou imperiosa em minha vida. -Você consegue parar de escrever? E descobri que não. Tentei por diversas vezes, mas descobri que era mais fácil parar de respirar. Escrever é meu maior vício. Drummond dizia que a poesia era a sua cachaça. Descobri também que era a minha. Mas escrever por escrever, vai ficando muito sacal, os papéis vão se acumulando, você organiza por data de escritura, faz pastas e mais pastas, isto se avoluma de tal maneira que é necessário se fazer alguma coisa com aquilo. Primeiro pensei em tocar fogo, fazer uma auto inquisição. Danei a reler todo aquele material, apurar algumas coisas, reescrever outras, outras abandonar por completo. Foi assim que nasceu meu primeiro livro, uma antologia de mim mesmo, um apanhado de vários anos de poesia sem rumo e sem direção.

Como tinha algum dinheiro na época e experiência nenhuma nesta área, fiz um livro auto-financiado, um livro de autor que recebeu alguns elogios, apesar de alguns defeitos técnicos, é meu de capa a capa, tudo foi feito por mim, organização, correção, diagramação, desenho da capa, só não fiz a impressão. Apareceu uma oportunidade em mil, um camarada do Ceará me fez cada exemplar por R$ 0,88 (Oitenta e oito centavos), com frete e tudo. Recorri a um velho amigo para fazer o prefácio, e lá estava ele. Sob o título pomposo de “Poemas Do Século Passado – 1982-2000”, nascia minha primeira aventura solo.


De repente tinha mil exemplares de um livro, na verdade mil e duzentos, pois o impressor me deu um brinde, e não fazia a idéia do que fazer com aquilo. Na falta de uma idéia melhor, fui dando aos amigos de presente, vendia alguns aos que queriam ajudar de alguma forma, os levava a encontros com escritores e acabava usando o livro como cartão de visita, mandei para revistas literárias, a críticos, jornais, gastei uma nota com correio. Algumas pessoas foram muito generosas, e embora eu suspeite de alguns porque são também meus amigos, recebi alguns elogios, o jornalista e poeta Zanoto volta e meia publica os poemas deste livro em sua coluna de jornal, já me usou até como epígrafe de seus textos.


A crítica mais interessante veio do poeta e ensaísta Ricardo Alfaya, que não poupou elogios a minha capa, um trabalho em arte xerox, usando uma série de documentos velhos. Uma boa medida para saber se estamos velhos é só conferir quantos documentos acumulamos. Pois bem o Ricardo Alfaya, desvendou o livro pela capa, um rito de passagem para a vida adulta, nos meus trinta e oito anos, finalmente havia chegado à maturidade, e afastado os fantasmas dos poemas guardados com o livrinho de poemas.

(Mas ai, encontrei pela vida o poeta Cláudio Willer, que me envenenou com o surrealismo, o que dá uma outra história.)


Enfim me restam uns muito poucos livros comigo, posso dizer que sou um autor de um título esgotado.

(De vez em quando ele aparece em um sebo ali e acolá, me deixando muito orgulhoso de meu filhote, que é como chama seus novos livros a poeta Dalila Teles Veras.)

segunda-feira, 23 de março de 2009

Hoje vivo assombrado pela palavra.


Tenho me divertido muito explorando o Youtube, à noite sozinho eu e a tela do micro-computador, fico revendo canções dos anos 1960 do século XX, a década que não terminou. Fico imaginando como são as pessoas que colocam aqueles vídeos ali. Se são saudosistas empedernidos como este poeta velho e cansado, que fica chorando à toa, imaginado possibilidades que nunca se concretizaram. Hoje escutei algumas canções de Silvio Rodriguez Dominguez, e suas letras engajadas e belíssimas, desandou a encher-me de lágrimas os olhos. Os poetas que atualmente execram qualquer possibilidade de engajamento, sem imaginar que a palavra poeta já supõe que estamos de uma certa forma à serviço da comunidade. Elias Canetti destrincha a palavra poeta e dela extrai diversas coisas interessantes, uma delas é do poeta se converter nas pessoas que o lêem em uma trajetória ao contrário da arrogância de pessoas que conheço, que gostam de vergar o título de poeta.

Hoje é o futuro de minha infância e juventude, e carrega uma sensação de fracasso e amargo da derrota. Meus sonhos militantes eram um puro delírio, que idiota imaginar que todos queiram a utopia. Como na fábula de Buda todos precisam de pão para viver, precisam lutar contra a morte, precisam ter filhos, e criá-los, educá-los, e ajudá-los a construírem casas e terem seus filhos também. A roda da vida é irrevogável, todos estamos presos à mesma.

Agora vejo meu neto reinando pela casa, e tento imaginar em que mundo ele viverá, quais serão seus sonhos quando chegar sua vez de sonhar. Lembro de sua mãe criança correndo com seus coleginhas entre cadeiras de convenções intermináveis, palavras de ordem e discursos. Não posso emprestar-lhe os meus, não posso nem ao menos dá-los. Porque ele haveria de querê-los? O pior de tudo é ter ainda a sensação de que estávamos certos em nossa juventude, de querer um mundo melhor para todos, de viver um socialismo tão real quanto o chão que não pisávamos. Mudaríamos tudo, menos a convergência do tempo, e o fato de que quanto mais velhos ficamos, mais egóicos e umbigocentristas nos tornamos. Sobrevivemos e não ficamos sábios, ficamos chatos. Muitos de nós assumiram cargos públicos, se aferram às suas cadeiras e salas confortáveis e se tornaram tão retrógrados e alienados quanto àqueles que combatíamos. Tive minha cota de vivenciar estas relações, o que ganhei foram problemas cardiovasculares. Um artista no poder público, é tão útil quanto uma lâmpada elétrica aos aborígines do deserto. A administração pública trabalha com questões irresolvíveis, é um poço que não tem fundo. Alguns se adaptam e seguem a vida, outros, os insensatos, como dizia Bernard Shaw, tentam mudar as coisas, servir de fato ao povo, melhorar as condições de trabalho, e se quebram em mil pedaços, espalhados pelo limbo.

Mas falava de saudades, de canções que nos levantavam, que nos faziam acreditar, hoje como já disse outro dia, vivo uma ambigüidade estranha. A poesia flui pelos meus ouvidos como o som do vento nas pedras e as ondas batendo na praia, é mais forte que a necessidade de viver. Aliás continuar vivo é uma coisa que me incomoda, por muito tempo pensei que tinha nascido para morrer cedo, esqueci de que o último herói de todos os tempos foi covardemente assassinado nas serras da Bolívia. Hoje vivo assombrado pela palavra e pelos fantasmas de mim mesmo que morreram, mas continuam em mim.

Escrituras Editora, Livraria Martins Fontes e Livraria Alpharrabio
convidam para os saraus de lançamento do livro

Outros silêncios
de
José Geraldo Neres


Quarta-feira, 15 de abril de 2009
das 18h30 às 21h30
Livraria Martins Fontes
Av. Paulista, 509 - Cerqueira César - São Paulo/SP
Tel.: (11) 2167-9900
(Em frente à estação Brigadeiro do metrô. Convênios com estacionamento -
Rua Manoel da Nóbrega, 88 e 95 - primeira hora gratuita)


Quinta-feira, 7 de maio de 2009
das 18h30 às 21h
Alpharrabio Livraria e Editora
Rua Eduardo Monteiro, 151 - Jardim Bela Vista - Santo André/SP
Tel.: (11) 4438-4358

Nos dois saraus haverá leitura de fragmentos do livro pelos atores
Carlos Lotto, Rádi Oliveira, Vanessa Castro e Zenaide Paludo
Performance: Kiusam de Oliveira (corporeidade afro-brasileira)
Intervenção musical: Henrique Crispim (Banda Pierrot)
Na Alpharrabio, a apresentação será de Dalila Teles Veras, com pintura ao vivo por EMOL

Esta obra foi realizada com o apoio do Ministério da Cultura do Brasil - Fundação Biblioteca
Nacional - Coordenadoria Geral do Livro e da Leitura, e da Secretaria de Estado da Cultura de
São Paulo - Programa Ação Cultural - 2008 (ProAc)

quinta-feira, 12 de março de 2009

Santo de casa não faz milagre.

Na página 03 (três) do Caderno Cultura e Lazer do Diário do Grande ABC do dia 11 de março de 2009 há uma manchete que me deixa deveras incomodado, “ Cultura além do coreto nas sete cidades”. Estaria o jornalista elogiando de forma contundente o espetáculo de Thiago Lacerda, ai seria um jogo de retórica, ou pior que isso, o jornalista desvaloriza a produção local em detrimento da que vem de fora das sete cidades.

Há muito tempo sinto neste caderno de nosso jornal regional, uma crítica muito forte em relação a nossa produção, digo nossa, pois produzo cultura também. Nada é suficientemente bom para merecer ao menos uma nota de rodapé. Artistas da região angariam prêmios pelo Brasil afora, pessoas sediadas na região são suficientemente boas para estar em produções de renome em teatros de São Paulo e até na Rede Globo, mas por aqui, não são nada. Recentemente vários artistas do Grande ABC foram expoentes no Mapa Cultural Paulista, e sequer foram citados por este jornal.

Talvez nosso jornal, tão querido e necessário, devesse também olhar para dentro do coreto, quem sabe tivesse grandes surpresas. Uma região que já produziu um presidente da república, pode muito bem produzir artistas de renome, ou não. Devemos em tempos de selvagem globalização valorizar talentos que podem com reconhecimento desabrochar. A resistência cultural se faz de guerrilhas poéticas. Em tempos de massificação cultural, descobrir que temos também um patrimônio cultural imaterial, talvez seja o caminho para a tal propalada identidade que falta ao Grande ABC.

domingo, 8 de março de 2009

“OLHARES FEMININOS”

Está acontecendo até o dia 31 de março, como parte das atividades relacionadas ao “Dia Internacional da Mulher” da Câmara Municipal de Mauá – SP e abrindo o Saguão da Câmara como espaço expositivo de artes, a Exposição coletiva de artes plásticas.

“OLHARES FEMININOS”

Apresentando: fotos de Cecília Camargo, aquarelas de Neli Vieira e acrílica sobre tela de Sarah Helena.


De 06 de março de 2009 até dia 31 de março de 2009 Horário Das 8h às 17hs. De segunda à sexta feira.

Local: Câmara Municipal de Mauá – Av. João Ramalho, 305 Vila Noêmia- Mauá – SP
- entrada pelo portão do Teatro Municipal de Mauá –



Cecília Camargo, reside em Mauá desde seu nascimento, tem 45 anos, é professora de Arte da EMEJA Clarice Lispector e da E.E. Carlos Drummond de Andrade, é também fotógrafa. Participou de várias exposições coletivas e individuais e publicou o livro de postais Do Pó de Pedra à Porcelana.

O presente trabalho é o foco da interferência humana na argila que serviu de leito à cidade. Fica o registro da relação entre a produção industrial e as mãos que percorrem da dureza da pedra à delicadeza da porcelana. Peças que levam em si a marca das pessoas que as tocaram e pessoas que levam em si a marca da fábrica que as envolveu.

Neli Vieira, pintora, poeta e cenógrafa. Participa ativamente de coletivas de arte, salões, eventos nacionais e internacionais.

Suas aquarelas traduzem seu pensamento de que certamente existem maneiras diferenciadas de se ver as coisas deste mundo. Existem pessoas que só conseguem ver o que podem tocar e outras que tocam as imagens internas e transformam-nas em imagens visíveis. Isto é o que chamamos de Magia da Criação.

Sarah Helena, arte educadora, artista plástica e escritora, Sarah Helena tem vinte e seis anos e tem desenvolvido um trabalho fundamentado na mitologia e na literatura, tanto com xilogravuras, quanto com tinta acrílica e objetos. Seus trabalhos já foram capa ou ilustração de livros, córdeis e jornais de autores da cidade e já participou em diversas exposições coletivas na região.

Sua temática sempre gira em torno dos temas universais que permeiam a mitologia e a literatura, os arquétipos, as jornadas heróicas, a capacidade humana de dar forma alegórica e visual aos seus pensamentos e necessidades mais profundos. Através de diversas mídias, explora o subconsciente e sua expressão através dos mitos e temas literários.

As três artistas fazem parte do coletivo literário e artístico Taba de Corumbê da cidade de Mauá-SP.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Hoje a poesia não teve como sair para a rua.



Li uma notícia hoje no jornal Diário do Grande ABC, do qual sou assinante, que me deixou indignado. A de que o advogado da Arquidiocese de Olinda pediu que a mãe da menina estuprada pelo padrasto seja indiciada por aborto ao permitir a retirada dos fetos, pois desgraça pouca é bobagem, a menina estava grávida de gêmeos. Esta afirmação para mim, é no mínimo homicida, uma vez que a condição da gravidez fatalmente levaria a criança à morte. E mesmo que pudesse ser levada a contento, o organismo de uma criança de nove anos não está preparado para algo tão perigoso e complicado que é uma gravidez. Não gostamos de falar isso, mas apesar de algo sublime, a mulher fica muito frágil e sujeita a questões de risco à sua saúde. Além de todas as questões psicológicas envolvidas.

Passou da hora do aborto deixar de ser crime no Brasil, tirando algumas pessoas hipócritas e fanáticos religiosos, qualquer pessoa que tenha uma inteligência razoável, é favorável à sua legalização. É absurda a maneira com que a Igreja Católica interfere na vida dos cidadãos. É estranho que não vi nenhum pronunciamento dos mesmos quanto aos atos libidinosos do padrasto. O estupro para estas pessoas é um mal menor diante do aborto. Vide a quantidade absurda de padres estupradores de crianças que se vê pelo mundo, Hollywood fez até um filme sobre o assunto que estava na premiação do Oscar. O fato de que esta criança perdeu a chance de ter uma vida normal daqui para diante é irrelevante para estas pessoas.

Gostaria de saber qual o problema destes cristão fanáticos com a mulher. Elas foram torturadas, queimadas e execradas em praça pública; lhes é negado o direto de estar comandando uma congregação; e ainda por cima tem de carregar em seu ventre os frutos da violência sexual a que muitas são submetidas. Em caso de estupro o aborto no Brasil é permitido, mas as mulheres ficam sujeitas à vontade de magistrados, em sua maioria absoluta homens e de classes sociais privilegiadas, que carregam para suas arbitragens os seus preconceitos pessoais. Muitos desfavoráveis à mulher e contra o aborto. Ainda que este caso chegou á mídia, quantas mulheres neste país além da violência, tem de conviver anos com o abusador, ter filhas dele, e viver o terror dessas também serem abusadas. Existe uma violência latente contra a mulher em nossa sociedade ibero-americana, e qualquer tentativa de libertação deste jugo, é punida com extrema severidade. Mutilações, surras, estupro, assédio moral e também a morte, esperam pela mulheres que se mostrarem rebeldes.

Existe a violência sutil, que faz as mulheres se acreditarem imperfeitas, a mídia falando de uma falsa epidemia de obesidade, que na verdade não tem nenhuma base científica, além de uma indústria toda voltada para ganhar muito dinheiro com isso. Mulheres normais e belas se submetem a todo tipo de tortura que chamam tratamento médico, usam roupas desconfortáveis e tem modelos inverossímeis a seguir. Mulheres que são tratadas no computador servem de referencial às mulheres reais. A infelicidade é uma poderosa arma de opressão. A sociedade de consumo não gosta da mulher e nem do feminino. A mulher ideal é aquela boneca de vinil japonesa, que não fala, não reclama, está sempre disponível e nunca mostrará os sinais do tempo, nem será capaz de pensamentos autônomos.

E o que tudo isso tem a ver com a poesia. Não sei. Só sei que deveríamos achar um modo de viver o poético em nossas vidas. A poesia é a rebelião contra a moral e os bons costumes. O verdadeiro poeta deve saber como é a dor do outro. O estupro é a total negação do outro, apesar da dor física, ele também é moral, é anti-ético. É a destruição total dos laços de confiança, não é possível conviver com a civilização. É pior que a barbárie, é uma reação infantilóide contra as travas éticas que devem nortear a nossa vida. É o mais profundo egoísmo.

Hoje a poesia não teve como sair para a rua.

A defesa da vida de um feto não pode perpassar pelo risco à vida de uma criança que o carrega.