segunda-feira, 8 de março de 2010

Blogagem Coletiva - "100 anos do Dia Internacional da Mulher - Celebrar o quê?"



Todas as Vidas


Cora Coralina




Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...


Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.


Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.


Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.


Vive dentro de mim
a mulher roceira.
- Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos
Seus doze netos.


Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo alegre seu triste fado.


Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.


CORALINA, Cora. Todas as Vidas. Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. São Paulo: Global editora, 1984, p. 45-46 -
Todas as Vidas de Cora Coralina na visão da teórica Hélène Cixous





Blogagem Coletiva '100 anos de Dia Internacional da Mulher - Celebrar o quê?'



Cora Coralina, no poema “Todas as vidas”, encarna muitas mulheres, que poderiam ser tranqüilamente todas as mulheres. Faltaram as profissionais liberais, que à época da construção do poema não estavam ainda em tão evidência, ou que infelizmente por sua posição social e econômica, tem de fazer o papel social de homens, inclusive em sua cota de opressão. Ausentes também estão as mulheres que trabalham na área da saúde, se os médicos homens são maioria, no “chão” dos hospitais, os serviços mais duros, são executados, quase na sua maioria, por mulheres, e não falou das professoras, em especial das primárias, que em sua maioria quase absoluta fazem parte do corpo docente. Mas se olharmos com atenção, veremos de uma forma ou outra todas as mulheres ali representadas. A poeta Cora Coralina perscruta suas almas, e ouve no silêncio que se estabelece, todas as nossas almas. São das mulheres todas as vidas, são as mulheres que cuidam para que se preservem todas as vidas.

Se pensarmos no que se estrutura um país, para seu desenvolvimento, crescimento e sua manutenção, o papel mais importante é relegado às mulheres. E nas sociedades subdesenvolvidas à margem, como em nosso país, entendemos bem o nosso descompasso, quando vemos o quão pouco valorizadas são estas profissões. Vemos nesta situação um grande erro estratégico, quando transferimos para a profissão exercida por mulheres, todo o preconceito e desprezo histórico e histérico pela mulher. Cometemos um suicídio intelectual e físico. Trabalhassem as profissionais pelo que ganham e não pelo que merecem, a coisa não estaria ruim, já teria quebrado em mil pedaços.

A construção da opressão tem um círculo perverso que utiliza os oprimidos como agentes da opressão. É assustador imaginar o que se passa em outros lugares fora da realidade cotidiana dos grandes centros, onde de alguma forma, existe um mínima proteção legal para as mulheres, e ainda ocorrem massacres cotidianos contra suas condições. O que imaginar dos rincões de nosso país, ou lugares dominados pela exploração humana e da intolerância religiosa. Onde impera a dor e o silêncio, violência física e moral, o trabalho mais penoso ainda, os estupros, as mutilações físicas, a igualação com a criação de animais e seu respectivo comércio, a diferenciação da alimentação, onde as meninas não recebem o mesmo alimento que os meninos e são forçadas a trabalhar mais penosamente; ou tudo isso junto, mais o fato que devem permanecerem dóceis, comportadas, em silêncio, com o risco de serem severamente punidas ao menor e insípido sinal de rebeldia.

Por tudo isso que me recordo incessantemente da máxima de Bakunin, que fala que enquanto houver um escravo na terra, todos seremos escravos. A servidão do irmão humano em outro canto do planeta é a nossa servidão também. O mesmo podemos falar da condição da mulher, apesar dos avanços que ocorreram dos anos 1960 para cá, ainda há muito que conquistar, há muito o que romper em nossas psiquês, a opressão está no fundo de nossos subconscientes esperando o momento oportuno de se manifestar. Uma prova cabal disso são nossos xingamentos e ofensas pessoais. Nota-se, não por acaso, que todos os calões, frases feitas e tentativas de inferiorização do outro, envolvem de alguma forma uma condição feminina: o filho sem paternidade, a profissão aviltante, o homem em condição de mulher, sempre é o feminino que carrega a raiva e o ódio de gênero. Quando insultamos, mostramos nossa verdadeira formação e o ódio histórico contra a mulher, e com risco de criar algumas polêmicas, das próprias mulheres. Não consigo ver um único humorista ou comediante que não saia mais cedo ou mais tarde com uma afirmação misógina, me lembro da pérola literária do grupo de humoristas “Casseta & Planeta”, “Mãe é mãe,/ paca é paca,/ mulher; / mulher é tudo vaca.”, esquecendo o autor que sua progenitora também é mulher, e apesar de acreditar-se no senso comum que mães são assexuadas, foi necessária uma relação sexual para que esta concebesse, nega-se à mãe não só a sua condição de mulher, nega-se a esta o fato de poder ter prazer com seu corpo. Creio que devemos deixar as explicações possíveis para isto tudo com os psicanalistas freudianos.

E onde estou querendo chegar: estou pronto a dizer que a opressão contra a mulher também oprime o homem, estamos juntos no mesmo barco, encurralados no mesmo beco, e se não encontrarmos um ponto de alteridade, sempre seremos explorados. O homem enquanto gênero quando oprime a mulher, é também agente da opressão para consigo mesmo. Há um tempo, em um regime opressor, mais cedo ou mais tarde sobra para todo mundo. É certo que o papel mais doloroso está ficando para a mulher, estamos partindo do enfoque sociológico, quem sente na carne a dor física, a privação, a diferenciação salarial, não está necessariamente aberto ao ponto de vista das conjecturas. Mas ao classificar a mulher como gado, esta é boa para isso, essa outra para aquilo, esta ainda para aquilo outro, está limitando potencialidades que usadas plenamente seriam benéficas para todos. É na insatisfação do desejo que operam as forças que realmente ganham com o atual estado de coisas. Criam mulheres ideais e idealizadas, e que não existem; para vender cerveja, ou manter as mulheres infelizes com os próprios corpos, quando a insatisfação sexual não está na ausência da beleza maravilhosa ou do corpo perfeito, mas na abordagem que se faz de sua libido. O melhor do sexo é se tocar de olhos fechados, é sentir o calor do outro, e ter contato com as mentes. O órgão sexual mais importante, ainda é a cérebro dentro da cabeça, e não a cabeça fora do cérebro.

O que me deprime é que em certos aspectos, o machismo dos homens jovens está voltando para o tempo de meus avós. Em uma época de possibilidade de escolhas, se retorna a um momento em que não havia opções, a crença comum tinha supremacia sobre a lógica e a razão. Lembrando Santa Tereza d’Ávila, quando afirma que mercenários é que esperam paga por dia, vivemos em uma realidade mercenária, onde só vale a paga por dia, quando Kant pensou o homem como ser digno, porque não tinha preço para a venda, não imaginou que na pós-modernidade, os seres humanos voluntariamente se colocariam a venda, e por coisas mais fugazes ainda que a sobrevivência. Passamos de primatas a cata de comida, por primatas a cata de bens não duráveis, nossa dignidade talvez valha um celular, computador ou outras quinquilharias eletrônicas. Pior ainda vivemos pela promessa que nunca será cumprida da satisfação total. Somos escravos de nossas escolhas, e em uma sociedade de individualismos extremos e competição acirrada, cabe aos mais fracos e oprimidos históricos o tombo maior. E tudo esquecido o fato que para cada um que chega na reta final, há uma centena de milhar que só olha. Nesta corrida no entanto foram jogados fora como peso a dignidade e a compaixão. São as mulheres que acabam recolhendo nossos restos pelo chão do caminho. O feminino é que poderá salvar-nos de nós mesmos. Descobrir que quando se oprime a mulher, se oprime toda a humanidade.

domingo, 7 de março de 2010

QUANDO CHEGAR







Martha Medeiros

"Quando chegar aos 30
serei uma mulher de verdade
nem Amélia nem ninguém
um belo futuro pela frente
e um pouco mais de calma talvez

e quando chegar aos 50
serei livre, linda e forte
terei gente boa ao lado
saberei um pouco mais do amor
e da vida quem sabe

e quando chegar aos 90
já sem força, sem futuro, sem idade
vou fazer uma festa de prazer
convidar todos que amei
registrar tudo que sei
e morrer de saudade."

Martha Medeiros (Porto Alegre, 20 de agosto de 1961) é uma jornalista e escritora brasileira.

quinta-feira, 4 de março de 2010

International Working Women's Day - Dia Internacional da MULHER Trabalhadora.

Celebrar o que?

Celebrar o suor e a luta de todas que lutaram antes de nós, e a nossa obrigação de continuar esta luta até a vitória. 

Dia Internacional da MULHER Trabalhadora.













VALENTINA KULAGINA
Russian, 1902-1987
"International Working Women's Day is the day of judging of socialist competition"
1930
Lithograph
43¼ x 28½

Blogagem Coletiva '100 anos de Dia Internacional da Mulher - Celebrar o quê?'

Blogagem Coletiva '100 anos de Dia Internacional da Mulher - Celebrar o quê?'

Em 2010, a comemoração do 8 de março como Dia da Mulher completa cem anos. Para celebrar essa data, que este ano é duplamente especial, convidamos a todas/os para participar da blogagem coletiva organizada pelo Alma Rubra.

O tema é: "100 anos de Dia Internacional da Mulher: celebrar o quê?". A proposta é discutir o que aconteceu no dia a dia das mulheres em 100 anos de lutas e conquistas.

Para participar, comente neste post colocando o nome e endereço do seu blog, leve o selo e poste um texto sobre o tema no seu blog no dia 8 de março.

Participe!







Mais informações sobre os 100 anos do Dia da Mulher, indicamos o "Dia Internacional da Mulher: em busca da memória perdida" AQUI

OUTRAS PALAVRAS - POÉTICAS DES-DO-BRA-DAS ESPECIAL "MÊS DA MULHER" E "MÊS DA POESIA"

OUTRAS PALAVRAS - POÉTICAS DES-DO-BRA-DAS
ESPECIAL "MÊS DA MULHER" E "MÊS DA POESIA"



Diálogo entre as diversas realidades poéticas. Palavras & trocas artísticas, leituras, performance, intervenção musical, poesia, dança, diálogo afro-caiçara-suburbano. Diálogo multi-linguagem a abordar e desdobrar o corpo, a cidade, os outros corpos, e as outras cidades.

Convidados: Beth Brait Alvim, Claudio Willer, Edson Bueno de Camargo, Henrique Krispim, José Geraldo Neres, Jorge de Barros, Kiusam de Oliveira, Pierina Ballarini (Projeto AURORA), grupo Percutindo Mundos, Rádi Oliveira, Ryck Bastos, e Rodrigo Basan.

Local: CASA DA PALAVRA – ESCOLA LIVRE DE LITERATURA
PRAÇA DO CARMO, 171, CENTRO – SANTO ANDRÉ, SP
TELEFONE: (11) 4992-7218
SEXTA-FEIRA, 12 DE MARÇO DE 2010
A PARTIR DAS 19H00

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Considerações sobre o texto "Por que continuar lendo Paulo Freire?" de Moacir Gadotti



Ao abordar o tema “ Por que continuar lendo Paulo Freire?”, prefácio do Professor Moacir Gadotti para uma das edições mais recentes da “Pedagogia do Oprimido”, nos deparamos com uma questão que vai um pouco mais além dos aspectos teóricos do problema abordado. Paulo Freire rompeu a fronteira da experimentação meramente científica, seus alunos e colaboradores não eram simplesmente um estudo de caso, eram seres humanos que mereciam e merecem ser tratados como tal. Ao subverter a ordem perversa de que o culpado pela ignorância é o adulto analfabeto, Freire coloca na discussão aspectos históricos e sociológicos, que muitas vezes ficam fora das discussões acadêmicas, o ser humano, a pessoa e não o número coisificado,  é algo de suma importância.  Acima de tudo, Paulo Freire se coloca também como membro da espécie humana, e portanto dentro do rol de acontecimentos e não como um observador olhando de um nicho seguro.

Existe uma herança maldita que os países da América Latina carregam: colonização forçada; massacres de populações autóctones; uma economia de monoculturas, baseada de fora para dentro e principalmente a mancha vergonhosa da escravidão, colocando um destaque para o Brasil, que deu uma sobrevida muito grande ao período de escravidão, ponto chave para sua economia, mas causa de estagnação e a desastrosa mudança do sistema de educação jesuítico para as Cartas Régias de forma violenta e sem transições, somado o fato que educação popular por muito tempo não foi uma preocupação das autoridades. Muitos são os fatores que construíram a exclusão social neste período histórico, a exclusão social  construída impeliu às pessoas a ignorância e não o contrário, como era afirmado no final do século XIX e na primeira metade do XX, dentro de um pensamento positivista e determinista de nossas elites, inclusive as culturais e as responsáveis pela educação no país (que se diga de passagem, ainda tem uma forte predominância). O povo brasileiro de classes mais baixas, era visto até então como indolente e pouco afeito à aquisição de instrução, pessoas analfabetas e ignorantes,  sempre se deixando de lado uma riqueza cultural invejável, que por muito tempo ficou invisível. O analfabeto mal ou não era visto como um ser criativo e produtivo, muitas vezes ou quase sempre, a bagagem cultural desta pessoa era posta de lado pelos educadores, que não viam potencial nos conhecimentos da Cultura Popular que carregam.


Quando nos vemos diante de uma realidade mediática, isto é, construída pelos meios de comunicação e não pelo estudo científico, coloca-se a partir de uma abordagem neo-liberal, que estes fatores históricos deveriam ser desprezados e que são as pessoas culpadas pelo seu fracasso, e portanto também pela sua falta de escolaridade. Há quase que uma volta ao passado, onde os darwinismos sociais e determinismos, renascem como feridas.  Não podemos esquecer nunca que estes pensamentos no passado criaram condições para o colonialismo, fator de atraso dos países do terceiro mundo, do racismo que justificou este sistema exploratório e do surgimento do nazi-fascismo que quase destruiu o mundo como o conhecemos e criou tanta dor e sofrimento para a humanidade. Existe uma campanha de esmaecimento de períodos ditatoriais em nosso país, alguns infelizmente muito recentes, os quais alguns de nós testemunhamos em vida, que para além das liberdades democráticas, atingiram em cheio a educação e cultura de nosso país. Revistas e periódicos tentam agora amenizar este período com reportagens e editoriais de fontes duvidosas. Paulo Freire foi vítima de um revisionismo histórico no mínimo criminoso e difamatório, o qual não merecia.  

Nos vemos diante novamente da obra de Freire, humano que enxerga o ser humano com o carinho e cuidado necessário. O conhecimento humano evoluiu a ponto de entendermos novos mecanismos para a inteligência, e principalmente que o termo analfabetismo é inadequado para sociedades ágrafas, que constroem seu conhecimentos e  cultura independente do uso da palavra escrita. Culturas sobreviventes à ataques a sua integridade. Não cabe no mundo mais um pensamento único e unilateral.

            É preciso que nos humanizemos novamente. A  cada dia, devemos impedir que a rotina nos torne máquinas frias e calculistas, não cabe ao educador vislumbrar seus alunos como meras peças que saem da produção, e devemos ver que a produção das máquinas também é feita por seres humanos. Acima de tudo, que pessoas que lidam com seres humanos tem de ser seres humanos também.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Meu poema classificado em 16º para publicação em antologia - Poesia: Deserto



http://www.asesbp.com.br/concursos/poemas_cidpoesia_result.html

I PRÊMIO LITERÁRIO CIDADE POESIA – poema classificado em 16º para publicação em antologia  - Poesia: Deserto -  promovido pela Associação de Escritores de Bragança Paulista - ASES em parceria com a Prefeitura Municipal de Bragança Paulista, por intermédio da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Bragança Paulista -  2009.



deserto
 

formigas carregam
o amarelo
que um dia
foi  trazido pelo vento

observado bem de perto
o meio fio
é um deserto de pedras vermelhas
aridez de obstáculos ardentes
tudo é sólido granito

mesmo depois de nossa espécie extinta
as formigas carregarão
as flores caídas na rua

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

En Rachâchant

"O que vê aqui Ernesto?
- Um Crime."


Curta-metragem, que nos faz pensar a educação, alías este garoto Ernesto é bem impertinente, me lembra a minha pessoa quando criança, só que embora odiasse a escola, sempre gostei muito de aprender, a ponto de me sujeitar em troco do conhecimento.

Encontrado em:

http://www.youtube.com/watch?v=hE_kDkbAGy8
(com legendas em português)

En Rachâchant
Filme de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub
7 1/2 minutos
Fotografia: Henri Alekan (35 mm, preto e branco)
Som: Louis Hochet
Actores: Olivier Straub, Raymond Géard, Nadette Thinus, Bernard Thinus

Filmado em Paris, França,  em Agosto de 1982




Baseado no texto de Marguerite Duras “Ah! Ernesto” (1971), En Rachâchant é a historieta cômica e elíptica de um garoto que se recusa a cooperar no processo educacional.


Leia também:

http://jozieliwolff.blogspot.com/2009/08/en-rachachant-tributo-margarite-duras.html

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Mitzrael, Diogo “ ANDAR PELAS CALÇADAS DO INÚTIL” Editora Virtual Books – Pará de Minas – MG – 2009

Mitzrael, Diogo “ ANDAR PELAS CALÇADAS DO INÚTIL” Editora Virtual Books – Pará de Minas – MG – 2009



Algumas considerações para o autor.

Caro Diogo,

Não se pode perder o senso crítico nunca, mas tampouco devemos ser censores de nós mesmos, é um difícil exercício de equilíbrio. Um primeiro livro sempre contém irregularidades, muitas vezes fazemos uma raspagem de tudo o que temos escrito por anos, e colocamos tudo sem muito critério, há uma certa ansiedade por fazê-lo. Existe também uma tendência muito normal em nossos primeiros escritos, de serem por demais confessionais, de girarem muito em torno do próprio umbigo, talvez por características das circunstâncias da poesia moderna, que está baseada demasiadamente no derramamento do “eu”. Este é um perigo por qual todos passamos e que sempre pode acontecer. Mas mesmo o auto referenciamento pode se tornar um bom tema e ferramenta do poema. Temos é que tomar o cuidado de não cair em um círculo vicioso, e ficarmos irremediavelmente presos na primeira pessoa do singular.

Descobri a duras penas, que fazer um livro, é a arte de ser cruel com nossos versos, um poema deve ser publicado pela sua literalidade, e não porque gostamos dele ou nutrimos simpatias; temos que pensar como leitor e imaginarmo-nos lendo os poemas como se pela primeira vez ou como um desconhecido, sem se dar de intimidades com o poema, não antes de conhecê-lo melhor. Como fazer isso sem se trair ou se sentir traído por si mesmo? Bem, isto já é um outro exercício.

Você me falou para apontar seus erros, sinceramente, não acredito que existam erros e acertos, bem e mal, e assim por diante. A vida não tem lógica ou sentido, e quase sempre quando acertamos é por acaso, por que esperar algo diferente da poesia? O livro tem poemas que não deveriam ser publicados, mas isto é minha opinião e visão unilateral, e o que faz um livro ser uma obra autoral é a sua escolha pessoal. Um livro com poemas que eu escolhesse seria o meu livro e não o seu. No livro encontrei trabalhos muito bons, alguns poemas belíssimos, como “VIOLINO”, “LADRÃO”, “THE WALL”, entre outros, que já mostram grande maturidade e cuidado, percebe-se neles o trabalho de carpintaria, não caindo no mito do poeta pronto e completo, que não pode mexer nos primeiros esboços para que “não percam a autenticidade”. Escrever é estar preparado para retrabalhar mais arduamente do que criar. Outro detalhe perceptível é que existe uma boa leitura por parte do autor, pois não existe criação de poesia sem leitura de poesia.

Os títulos dos poemas são uma história a parte, dar nomes a uma obra, poema, gravura, tela, é algo por demais complexo, pessoalmente tenho grande dificuldade com isso. Outra questão importante é a presença de humor em vários trabalhos, há uma riqueza de trocadilhos e uso de imagens lúdicas. O poeta e amigo Cláudio Willer diz que a presença de humor é bom para o poema e para a literatura. Importante, um humor que não cai na pieguice, na necessidade de agradar, é uma armadilha fatal para quem quer ser engraçado, mas deixa a inteligência de lado, não é o seu caso.

O livro tem um defeito imperdoável, não tem uma apresentação, mesmo um prólogo com suas intenções, ou a falta delas, tirando o exemplo baudeleriano do poema “DUCHAMP ME”, que serve como uma espécie de abertura, não há mais nada. Além da ausência total dos dados do autor, não temos como saber pelo livro quem você é, qual idade, por onde perambulou, e em tempos de Internet, um e-mail para contato, para que os possíveis leitores troquem impressões.

Não caia na balela do anonimato, da não importância do autor na obra, etc. Saber quem escreve facilita para quem lê, para a compreensão de certos filigranas e detalhes, que em determinadas condições podem passam desapercebidos. Além do que, o livro é seu melhor cartão de visitas, sua apresentação ao mundo, e, acredite, de uma longevidade assustadora. Livros passam de mão em mão, um único livro pode atingir mais leitores do que podemos nos dar conta. Não caia em falsa modéstia ou timidez, artistas não podem se dar a este luxo.

E por fim, nunca renegue este seu primeiro livro, que é muito comum em certos autores moderninhos e modernosos, isto é ridículo, somos o conjunto de tudo o que fazemos, para “além do bem e do mal”, a irregularidade e o erro são bênçãos, são a maior vacina para não nos tornarmos literatos chatos e auto referenciados.

Hanssen, Castelo - Um cego fita o horizonte – All Print Editora - São Paulo – 2009




Um dia o gravurista japonês Hokusai disse que com o passar dos anos e o desenvolvimento de sua técnica, seus desenhos passariam a ter cada vez menos elementos e aumentar o seu significado. É o que sinto na primeira impressão lendo “Um cego fita o horizonte”, do poeta Castelo Hanssen, sua enganosa simplicidade e despojamento, mostram o trabalho de um mestre em ação, demonstram que o poeta tem de se tornar amante das palavras, dormir com estas, se servir de palavras no café da manhã, e principalmente beber as palavras junto com uma boa cachaça, ou mesmo um copo de água quando se está com “aquela” sede.

Castelo faz uma poesia que estaria em desuso segundo alguns segmentos da “inteligenzia” literária nacional, com momentos pueris e outros soco no estômago. Vem na contra-mão de qualquer modismo, em um fazer poético muito focado no que chamamos no Brasil de “poesia marginal”, prova que toda a poesia é necessária e não existe um formato padrão ou canônico. Não faz concessões estéticas, e muito menos está preocupado com uma fórmula, a forma interessa menos que o conteúdo. Castelo nos faz chegar a sua mensagem, através de versos quase singelos, mas carregados de profunda significância, mexe com nossa psique mais íntima, toca nas cordas sensíveis do coração. O que vemos à mostra o tempo todo, é um ser humano completo, a poesia de Castelo Hanssen não é pudica, é pública, é andar nu o tempo todo como os índios, sem vergonha nenhuma de ser o que se é, sem medo nenhum de mostrar que sonha e constrói pequenas utopias. Um livro com sobressaltos, há poemas susto, mas principalmente, momentos para lidar com as emoções que carregamos trancadas a sete chaves, em um momento da história em que temos vergonha de sermos humanos, de chorar lágrimas sinceras, de se indignar com as coisas indignas, de sermos índios o tempo todo em território de brancos.

O livro carrega até um momento de revolta com a própria poesia, em “O verso não veio (poema de desamor à poesia)”, fala da poesia que nos incomoda o tempo todo, mas que tem vida própria e não nos serve em momentos em que precisamos dela, não somos nós que vamos a ela, mas o contrário, a poesia se serve de nós quando a apraz; no final do poema o poeta vaticina “já não sou mais poeta / estou de saco cheio”. Mas no poema seguinte, logo depois do desabafo, o poeta se reconcilia com a poesia em “Ave Peregrina” e reafirma a maior qualidade da poesia em um mundo de mercenários onde todos esperam paga, “esse caminho não me leva a lugar nenhum, / é por ele que eu vou”, Castelo ressoa em sintonia com o poeta mexicano Octávio Paz, que afirma que a poesia é salvacionista por não conter elementos de salvação, ela nos salva de nós mesmos, é algo que não se pode atribuir valor monetário, em um mundo que mergulha em um abismo mercantilista, onde tudo tem preço e ninguém tem alma. A morte da poesia será a morte do ser humano como nós conhecemos.

É necessário mencionar o poema que figura na quarta capa, encerrando o livro com “chave de ouro”, como se este fosse em si um longuíssimo soneto, por uma profunda identificação com o tema, preguiçoso contumaz e confesso que sou, “Santa Preguiça conservai a nossa humildade, / Macunaíma, seja vaidoso por todos nós.” Por fim, resta falar que a poética de Castelo Hanssen está permeada pela solidão, condição humana por excelência, pelo amor necessário, mas não necessariamente realizado ou compreendido. Ler Castelo Hanssen ainda dá um frio na espinha de quando éramos românticos sonhadores, escondidos nos porões e catacumbas.

A poesia de Castelo me lembra o leve amargo e doce intenso do doce de cidra que minha mãezinha, poeta dos tachos como Cora Coralina, ainda faz de vez em quando.