quarta-feira, 23 de março de 2011

8ª Edição de Blecaute: uma revista de Literatura e Artes

 Ler aqui:   http://pt.scribd.com/doc/51412075/BLECAUTE-Uma-Revista-de-Literatura-e-Artes-N-8-


8ª Edição de Blecaute: uma revista de Literatura e Artes, revista digital em formato pdf que tem como objetivo divulgar a produção literária e artística (contos, poemas, ensaios, dicas de leitura) de “novos” autores e artistas paraibanos, assim como de agentes de outros estados do nordeste, do Brasil e membros dos países lusófonos que interajam de algum modo com a literatura atualmente produzida no Estado da Paraíba.



Bruno Rafael de Albuquerque Gaudêncio
Janaílson Macêdo Luiz
João Matias de Oliveira Neto
(Os editores)

Contatos e informações:


EDITORIAL
Dias ainda melhores virão
Os editores
5
CONTO
Amor de Deus
Eduardo Sabino – MG
8
O SANTO OFÍCIO
Um mistério chamado Clarice
Franklin Jorge – RN
10
POEMAS
Epifania, Rugidos e outros poemas
Anna Apolinário – PB
13
ENSAIO
Tinha uma Pedra no meio do caminho
Fábio Vieira – PB
15
TIRADAS DO BAÚ
Bariga de tanquinho
Raoni Xavier – PB
24
POEMAS
Ars Aemulatoria
Erico Nogueira – SP
25
CONTO
Sequestro
João Matias de Oliveira – PB/CE
31
O AEROPAGO
Bojo, Fazendo Xixi e outros casos
Valdênio Freitas – PB
36
POEMAS
Zabé da Loca, Geografia e outros poemas
Edson Bueno de Carvalho – SP
39
CONTO
A Virgem Sagrada
Eduardo Quive – MOZ
44
ESTANTE
História da arte: da pintura aos dias de hoje – A. N. Hodge
Lauriceia Galdino – PB/RJ
49
O escritor e seus fantasmas – Ernesto Sabato
Jãn Macêdo – PB
51
POEMAS
Almas Roubadas, Descalço e outros poemas
Mauro Brito – MOZ
53
CONTO
A Pedra do Diabo
Maxwell F. Dantas – PB
56
POEMAS
Acaso caos, Vestido de Medo e outros poemas
Bruno Gaudêncio – PB
66
CONTO
A Laranja
Ronie Von Martins – RS
70
ENSAIO
O Conto popular: apreciação lógica formal do contexto histórico, linguístico e cultural do narrador oral
Félix Maranganha – PB/RN
74

                                                                                                                                                                        

segunda-feira, 7 de março de 2011

O NHEÇUANO - ANO 2 - NÙMERO 6 - Página 09





Iniciativa muito interessante do escritor Marco Marques, de Roque Gonzales, RS, de fazer um jornal dedicado praticamente à literatura e a cultura regional de sua cidade e região, os nheçuanos são os primos gaúchos da iniciativa mauaense da Taba de Corumbê. Sejamos também índios.


Neste número seis foi publicado um poema de meu livro "De Lembranças e Fórmulas Mágicas", que é me muito caro, pois fala de meu neto, minha passagem para a ancestralidade.

domingo, 6 de março de 2011

“POA 2502”


A “POA 2502” reúne quadrinhos, poemas, ilustrações, depoimentos, contos, fotos. Ciclistas ou não, os artistas retratam a importância do uso da bicicleta como meio de transporte e respondem com arte à brutalidade do acontecimento.


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Link para download: http://www.arvoreseletricas.com/download/poa2502.pdf

* URL para twitter: http://is.gd/poa2502 ou http://ur1.ca/3e039




Após a notícia do atropelamento percorrer o Brasil, cinco escritores indignados dispararam uma convocação por e-mail. Para sua própria surpresa, receberam, num período curtíssimo, dezenas de mensagens, muitas de interessados, muitas outras demonstrando apoio ao projeto. Nos três dias seguintes, vieram os trabalhos, a maioria feita no calor da hora, no fervor da indignação. São esses os trabalhos que compõem a revista.

O fotógrafo Leo Caobelli criou sua obra a partir de uma cópia do e-mail que enviou ao agressor, Sr. Ricardo José Neis. André Dahmer, criador d’Os Malvados, contribuiu com tirinhas conhecidas, que apoiam o uso da bicicleta como meio de transporte. A poeta Lilian Aquino compôs um poema carregado de uma sensualidade cáustica, que fala à altura do acontecimento. Cauê Ito enviou uma foto de sua viagem ao Japão, de quando comprou uma bike e se perdeu pelas ruas de Kyoto. A escritora Veronica Stigger trouxe duas fotos de sua intervenção chamada “pré-histórias”.

A revista traz poucas unanimidades, a começar pelo fato de que os seus autores não são necessariamente ciclistas. Todavia, têm em comum a solidariedade do luto e do alívio em saber que não foi necessária uma morte para disparar o ato. O atropelamento em Porto Alegre se destacou da massa diária de crimes de trânsito por ter vitimado não um indivíduo, mas um grupo. Contudo, como seria se, ao invés de vinte, um único ciclista fosse atropelado? A fragilidade do ciclista é a fragilidade do artista é a fragilidade humana.

Editada somente com softwares livres, a Revista POA 2502 é licenciada com direitos autorais liberados para uso não comercial, podendo ser copiada e redistribuída na forma em que se encontra.

Lançamento oficial: dia 9 de março, quarta-feira de cinzas, quando o ano realmente começa. Apesar da revista ser virtual, haverá abraços reais e bate-papo na Praça do Ciclista, a partir das 19h, São Paulo. Todos convidados!

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Link para download: http://www.arvoreseletricas.com/download/poa2502.pdf

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URL para twitter: http://is.gd/poa2502 ou http://ur1.ca/3e039

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Hashtag: #poa2502

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Exercício de criação nº 9



objetos perdidos



contorno de nadas
objetos perdidos em si
( o passado
brinca
no chão de tábuas da sala )
(outra casa) (outro tempo)

nicho vazio
a espera por novos deuses

as saudades não tem forma
esta tarde













01/02/2011

Exercício de criação nº 9

Olhos cabalísticos - LANÇAMENTO DOS LIVROS "CABALÍSTICOS" DE EDSON BUENO DE CAMARGO, E "OLHOS DE BARRO" DE JOSÉ GERALDO NERES, COLEÇÃO ORPHEU, EDITORA MULTIFOCO

VÍDEOS DA MESA CRÍTICA COM: CLAUDIO WILLER - ELIZABETH BRAIT ALVIM - ELIZABETH ROBIN ZENKNER BROSE



DATA: 10/SETEMBRO/2010
ÀS 19HS.

LANÇAMENTO DOS LIVROS "CABALÍSTICOS" DE EDSON BUENO DE CAMARGO, E "OLHOS DE BARRO" DE JOSÉ GERALDO NERES, COLEÇÃO ORPHEU, EDITORA MULTIFOCO

Local: CASA DA PALAVRA -- ESCOLA LIVRE DE LITERATURA
PRAÇA DO CARMO, 171, CENTRO -- SANTO ANDRÉ, SP - Brasil
TELEFONE: (11) 4992-7218.



http://www.youtube.com/watch?v=jzKYOt1ZcsU


http://www.youtube.com/watch?v=ksc6jz1lNs4

http://www.youtube.com/watch?v=AphVeR_kwGo

sábado, 29 de janeiro de 2011

"Meu pé de laranja lima" - comparações




Não me lembro ao certo quando li pela primeira vez o livro “Meu pé de laranja lima”, houve um período em minha vida que lia livros em uma febre faminta de letras e parágrafos, que nem sempre me dava conta do que lia. Lia livros em algumas horas e depois os relia, muitas vezes. É como devorar árvores pensando no papel que será escrito. Algumas coisas levei anos para digerir as idéias, outras nunca digeri direito, outras ainda aparecem como fantasmas em meus poemas. Em outras ocasiões não terminava de ler um livro e começava outro (um hábito que descobri depois era praticado pelos surrealistas franceses).

“Meu pé de laranja lima” me marcou profundamente, quer pela narrativa, ou porque me identifiquei com o personagem (apesar do pequeno hiato do tempo e espaço do livro e o da minha meninice), quer pelo fato que tinha muito a haver com minha infância, solidão, quintais, árvores e traquinagens. Decerto o meu quintal tomei emprestado aos meus avós, com suas bananeiras, mexeriqueira, abacateiro, e nunca um pé de laranja lima. Mas as ruas de terra batida, as brigas na frente da escola, e as surras por qualquer motivo (e eu os dava), fizeram me enxergar no Zezé, e imagino quantas crianças de meu tempo não o fizeram também. Se existe uma coisa uniforme e democrática é a pobreza, que praticávamos em comunhão. Éramos todos iguais, a correr como vento e poeira, a subir nas árvores e rolar na grama como cães vadios. Estavam ali os terrenos baldios, as ruas de terra, os esgotos à céu aberto, só não havia uma grande estrada de rodagem para atravessar, minha cidade era, naquela época, tão miserável que se contavam os carros nos dedos (hoje temos uma grande frota e engarrafamentos, o tempo corrige tudo).

Descobri já adulto que tinha uma dívida moral com José Mauro de Vasconcelos, minha mãe comovida com as surras de Zezé, amainou as minhas, portanto é possível que algumas sovas me foram poupadas. 

Assisti o filme “Meu Pé de Laranja Lima” na televisão preto e branco que tínhamos em casa já no fim de minha adolescência, um filme brasileiro de 1970, dirigido por Aurélio Teixeira, que dentro de minha visão é muito fiel à história do livro, os cenários escolhidos eram muito parecidos com a minha cidade, o trem cruzando o centro, os carros velhos dirigidos por motoristas portugueses. Desde então a figura de Zezé e de minha infância triste se confundiram definitivamente. Sempre me senti a pessoa certa no lugar errado e no tempo errado. Sensível demais para uma realidade bem crua. Até no fato de ter entrado na escola mais cedo éramos parecidos. 

Lembro até hoje de minha professora de português do ensino médio, naquela época do colegial, a Dona Olga, pessoa que sempre respeitei muito, muito rígida e cheia de princípios, me disse categoricamente que José Mauro não era um escritor respeitável, pois tinha uma linguagem inadequada e cheia de erros de linguagem e gramática, “Meu pé de laranja lima” não era literatura. O que me deixou muito chateado, pois a palavra de nossos professores era muito importante, penso que foi a primeira de muitas discordâncias que tive com o establishment. Descobri por minha conta no estender do tempo, que o que importa em literatura é o que nos toca e que devemos ler tudo, até o que não gostamos. Desta forma mesclei em minhas leituras best sellers como “O pequeno príncipe”, “O menino do dedo verde”, “Fernão Capelo Gaivota”, junto com os romancistas russos, li furiosamente “Crime e Castigo” que peguei emprestado com meu primo, além da poesia de Fernando Pessoa e Cecília Meireles, de enciclopédias, dicionários, a Bíblia, bulas de remédio, muitas HQs e diariamente o jornal “Notícias Populares’, que meu avô comprava e deixava na sala de sua casa à nossa disposição, não necessariamente de forma voluntária (meu primeiro grande interesse eram as moças em trajes sumários do segundo caderno e os quadrinhos). 

Só fui entender a fala de minha professora do médio, ao ler o Professor Marcos Bagno, e seu fantástico livro “Preconceito lingüístico”, muitas vezes o que indica o caminho de certos intelectuais é o preconceito que permanece no Brasil desde a nossa patética aristocracia, que tenta eternamente se replicar e a sua visão escravista, sua principal filosofia. Preconceito que não morre apesar de estar sempre sendo escancarado à própria vergonha. 

No entanto como me disse um dia o poeta Cláudio Willer, livros tem uma capacidade orgânica de entranhar pelos meandros da mente humana e chegar a lugares físicos que nunca imaginamos. Um belo dia, para minha surpresa, leio um artigo que afirma ser “Meu pé de laranja lima”, um livro muito popular na China, recomendado pelas autoridades educacionais, um livro que tem influenciado gerações, pela singeleza de seu personagem principal, e sua capacidade de sobreviver inocentemente em meio a um mundo cruel, que lhe tira até o amigo vegetal. É incrível imaginar o salto cultural que este livro deu, e o trabalho imenso de seu tradutor para o chinês, numa conversão de culturas tão díspares e distantes, e no entanto os depoimentos encontrados no artigo me lembram a maneira como sempre encarei o livro, como que seja possível uma universalidade através da literatura, e da linguagem simples como foi escrito, através da ternura e da compaixão, que todas as crianças um dia foram colocadas em um momento de solidão absoluta, e a partir dai partiram para conquistar o mundo. 

Me tornei poeta não por opção, a poesia foi tomando conta dos vazios que tinha na alma. Se pudesse optar teria escolhido o caminho para o sucesso profissional e financeiro. Poderia viver sem culpa uma vida medíocre e produtiva. Mas os olhos depois de abertos, não podem se fechar à luz. As portas se abriram e não é mais minha prerrogativa fechá-las. Para alguns o verbo é mais forte que o pão. 

E por mais que lhes pareça às vezes este poeta uma pessoa dura, arrogante e amarga, tem um Zezé aqui dentro, acreditem, tramando traquinagens, correndo livre pelos quintais e arrabaldes. Lutando para vencer a tristeza que está a cada dia tomar conta de tudo. 



sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

II Sarau Santista -- Pinacoteca Benedito Calixto



Dia 26/01 - a partir das 15 hs na Pinacoteca Benedito Calixto, sarau lítero-musical celebrando aniversário da cidade de Santos.

Com a participação de escritores residentes no Litoral e parceria com a Casa das Rosas - São Paulo,com a presença do escritor e curador do projeto "Quinta Poética", José Geraldo Neres, o encontro vai reunir todos gêneros literários. São esperados cerca de 20 escritores, entre eles Márcio Barreto, Adermir Demarchi, Marcelo Ariel, Regina Alonso, Madô Martins, Flávio Viegas Amoreira, Cyro Barreto, Zéllus Machado, Jorge Lampa, Edson Bueno de Camargo (Mauá /SP), Felipe Estefani, Frederico Barbosa, Carlos Lineu Pupo, Nair de Brito, DAniel Lopes, Marcia Barbieri e apresentação do grupo musical caiçara Percutindo Mundos e da bailarina Célia Faustino. O evento contará com o ilustre compositor santista Gilberto Mendes.

Com organização lítero musical de Flávio Viegas Amoreira e Márcio Barreto o "II Sarau Santista" estreita os laços que unem o litoral à capital, através de seus escritores e artistas que desenvolvem seus trabalhos na Casa da Rosas em São Paulo, Casa da Palavra em Santo André e na Pinacoteca Benedito Calixto - Santos /SP.

A Pinacoteca Benedito Calixto faz parte do Mapa Literário do Estado de São Paulo, através do "Sarau Caiçara", organizado por Márcio Barreto e Flávio Viegas Amoreira.

O evento marca também a leitura de trechos do livro "O Novo em Folha" de Márcio Barreto que foi lançado na Feira de Autores da Mata Atlância em Guarujá e terá leitura multimídia em março na Quinta Poética - Casa das Rosas - São Paulo /SP.

Recentemente entrevistado pelo crítico de arte Oscar D'Ambrósio no Perfil Literário da Rádio UNESP, segundo Márcio Barreto "O Novo em Folha trata da suscetibilidadade poética aos multimeios e multilinguagens, miscigenando significados e construindo novas relações entre imagem, palavra e sonoridade. O nomadismo levado ao seu âmbito primeiro re-significando identidades culturais e provocando novos olhares e reflexões acerca do específico e seus universos em movimento. Um passeio por paisagens sonoras, onde a literatura mistura-se à música e à filosofia, unindo o ancestral ao contemporâneo".

II Sarau Santista
Organização:
Flávio Viegas Amoreira e Márcio Barreto
26/01 a partir da 15 hs
Pinacoteca Benedito Calixto
Av. Bartolomeu de Gusmão, 15 - Santos /SP
Entrada Franca

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Das bananas

 
 
Das bananas



Depois dos horrores da Segunda Guerra Mundial, Elias Canetti escreve um ensaio onde esmiúça a palavra poeta, a partir de uma frase escrita e deixada em um local até cair nas mãos do escritor – “Fosse eu realmente um poeta, teria necessariamente podido impedir a guerra" – primeiramente indignado com tamanha pretensão, vício dos poetas, Canetti tenta em seu ensaio encontrar uma função social para a poesia para além da estética e da arte pela arte. Como se os que costuram as palavras possam realmente mudar o mundo de seu entorno. Canetti chega à conclusão que o poeta é uma espécie de bode expiatório, que puxa para si a dor dos homens e do mundo, para que possa devolvê-la de forma que as pessoas possam sentir de fato a dor que sentem. A poesia é necessária para que desenvolvamos o sentido da compaixão, a de sentir a dor do outro como se fosse nossa.

Se pensarmos bem, de fato, as coisas acontecem e se materializam através das palavras, são palavras que dão o mote das coisas, são com palavras que se escrevem os projetos e os programas de governo, são com palavras que confessamos nosso amor, e pelas palavras teremos filhos e com palavras falaremos aos mesmos que os amamos.

Existe também a possibilidade do gesto simbólico, quando nos comunicamos não por palavras mas por ações, mesmo que pequenas e imperceptíveis para nós mesmos. Creio que foi o que aconteceu no caso do deslizamento do talude do Morro do Macuco, quando a Prefeitura de Mauá mandou uma caixa de bananas meio vazia para os desabrigados. Este gesto, sem palavras, exprimiu um monte de idéias e frases inconscientes. Macuco é uma das formas de falar macaco, ao enviar bananas talvez neste gesto haja uma mensagem subliminar (espero que não).

Mas o que mais senti de fato é a falta de sensibilidade dos homens (e mulheres, infelizmente) do poder público para com a situação das pessoas. Mais e mais a vida republicana fica pragmática, a aceitar que as desgraças são uma espécie de preço a pagar pelo progresso, e que deve se passar por cima destes “episódios” em função do “bem maior”. É certo que as pessoas que vivem nestes locais perigosos tem consciência do risco que correm, mas também é certo que muitos foram empurrados para estes locais pelo capitalismo selvagem que se instalou em nosso país. Há uma crença geral que os desvalidos são culpados de sua situação, doutrina que sai dos porões dos partidos conservadores, para ocupar as páginas da grande imprensa, a mídia nos leva a crer que os pobres são os culpados pelos pobres.

Dói mais quando este gesto parte de uma prefeitura administrada pelo Partido dos Trabalhadores, que em sua origem, esteve nestes mesmos locais com os pés atolados na lama, reivindicando as melhorias que hoje não são realizadas. Um Partido que surgiu para ser diferente dos demais, e que vem sofrendo um processo de deformação, de entristecimento, de ampliação das visões gerais em detrimento do pequeno, do sensível, das pessoas. Do domínio dos tecnocratas, que não conhecem a compaixão, que se acomodaram no poder e não tem espaço para as pequenas pretensões das pessoas que moram dependuradas. “O poder emburrece”, afirmava o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, e mais recentemente os estudos do historiador e economista italiano Carlo Cipolla. Penso que mais do que isso, cria um espaço sanitário e higiênico em relação ao mundo que cerca os que fazem o exercício do poder. Todos nós temos um ditador a postos no interior de nossa consciência, pronto para tomá-la. A partir daí construímos o muro que nos impedirá de sentir a dor do outro. O exercício da compaixão é para os fracos, os que não tem poder.

Tenho que fazer um mea culpa, pois uma boa parte de minha vida, em especial da juventude, dediquei à construção do Partido dos Trabalhadores, e na minha ingenuidade, carreguei nos ombros as pessoas que hoje o dominam pragmaticamente. Acreditei que meu sonho socialista de um mundo melhor era suficiente. Como uma vez me disse a filósofa Olgária Matos, fazíamos a política do sonho, quixotesca, não nos preocupamos em fazer nossa vida, arrumar nossa cama, pois as coisas se solucionariam anarquicamente à medida que tomássemos o poder. Algumas pessoas mais argutas resolveram isto na vida republicana, eu, velho dinossauro em extinção, não. Mas isso é outra longa discussão.

Voltando ao morro do Macuco e ao Elias Canetti, lembrei de um pensador sombrio que disse que a persistência do erro era sabotagem. O dono desta expressão foi Stalin, pessoa que venerei boa parte de minha vida, e alguns bons companheiros hoje aboletados no poder também.

Não consigo acreditar que o poder público de minha cidade, Mauá, SP, queira desejar bananas aos que perderam suas casas e entes queridos, mas pior que isto, não são mais capazes de distinguir se o fazem, tamanho afastamento da realidade que vivem. Por isso erram tanto, por isso não corrigem sua rota de colisão.

Pior que deselegantes e negligentes. São omissos e nem se apercebem.

E como poeta não tenho sido melhor do que eles. (Perdi há muito minha pretensão de impedir ou impelir as coisas pelas palavras.)

domingo, 9 de janeiro de 2011