terça-feira, 28 de julho de 2009

Quinta Poética - 30 de julho de 2009 - Casa das Rosas




Escrituras Editora

e

Casa das Rosas convidam para a



QUINTA POÉTICA



com os poetas convidados

José Geraldo Neres (anfitrião), Edson Bueno de Camargo, Marcelo Ariel, João de Jesus Paes Loureiro e o jovem poeta Jorge de Barros. Participação especial do músico Henrique Crispim, do grupo Percutindo Mundos, Kiusam de Oliveira e Marcello Santos.



Quinta-feira, 30 de julho de 2009

a partir das 19h



Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos

Av. Paulista, 37 - São Paulo/SP

Próximo ao metrô Brigadeiro.

Convênio com o estacionamento Patropi - Alameda Santos, 74

Informações: (11) 5904-4499

è Próxima QUINTA POÉTICA: 27 de agosto de 2009, quinta-feira, às 19h, na CASA DAS ROSAS.

Saiba mais sobre o evento e os convidados:



Quinta poética

Mensalmente, a Casa das Rosas abre suas portas para a Quinta Poética, um grande encontro dos amantes da boa poesia, com a presença de poetas convidados e de um jovem poeta, que tem a oportunidade de apresentar seu trabalho. Grandes nomes da poesia, como Álvaro Alves de Faria, Beth Brait Alvim, Carlos Felipe Moisés, Celso de Alencar, Contador Borges, Eunice Arruda, Floriano Martins, Hamilton Faria, Helena Armond, José Geraldo Neres, Raimundo Gadelha, Raquel Naveira, Renata Pallottini, Renato Gonda, entre outros, já estiveram presentes nesses encontros, que são promovidos pela Escrituras Editora e a Casa das Rosas.


Os poetas:

José Geraldo Neres (anfitrião) (Garça SP, 1966) - Poeta, ficcionista, roteirista, autor dos livros Outros silêncios, (poesia, Escrituras Editora, 2009), Prêmio Programa de Ação Cultural - ProAC - Concurso de Apoio a Projetos de Publicação de Livros no Estado de São Paulo, 2008 e Pássaros de papel (Projeto Dulcinéia Catadora, edição artesanal, SP, 2007). Atua na área de Gestão Cultural, como produtor cultural, arte-educador, ministrando oficinas literárias, ênfase em criação literária e estímulo à leitura.



Edson Bueno de Camargo nasceu em Santo André (SP) em 1962 e mora em Mauá (SP). Publicou: De Lembranças & Fórmulas Mágicas (Edições Tigre Azul/FAC Mauá 2007); O Mapa do Abismo e Outros Poemas (Edições Tigre Azul/ FAC Mauá -2006), Poemas do Século Passado-1982-2000 e participou de algumas antologias poéticas. Participa do grupo poético/literário Taba de Corumbê da cidade de Mauá - 1º lugar nacional - 4º CONCURSO LITERÁRIO DE SUZANO – Categoria Poesia (2008) e 1º lugar do PRÊMIO OFF-FLIP DE LITERATURA 2006 – categoria Poesia.



João de Jesus Paes Loureiro - é poeta, prosador e ensaísta. Nasceu em Abaetetuba, Pará, às margens do rio Tocantins. É professor de Estética, História da Arte e pesquisador da Cultura Amazônica. É mestre em Teoria Literária e Semiologia pela PUC de Campinas e doutor em Sociologia da Cultura na Sorbonne, em Paris, com a tese Cultura amazônica: uma poética do imaginário. Sua obra Altar em Chamas (Civilização Brasileira) recebeu o prêmio nacional de poesia da APCA - Associação Paulista de Críticos de Arte em 1984 e Romance das Três Flautas, edição bilíngüe português/alemão (Roswitha Kempf Editora) foi finalista do Prêmio Jabuti em 1987. Suas obras mais recentes são: Pássaro da terra (teatro, 1999), Obras reunidas (4 volumes, 2000), Do coração e suas amarras (2001), Fragmento/Movimento (2003), todos publicados pela Escrituras Editora, e Au-delà du méandre de ce fleuve, Acte-Sud, França (2002). Site: www.paesloureiro.com



Marcelo Ariel é escritor e dramaturgo. Nasceu em Santos (SP) em 1968. Autodidata, mantém desde 1988 um sebo itinerante chamado O Invisível. Publicou, pelo Coletivo Dulcinéia Catadora, o livro Me enterrem com a minha ar 15 e, pelo selo LetraSelvagem, o Tratado dos anjos afogados e O céu no fundo do mar também pelo Coletivo Dulcinéia Catadora. Blog:www.teatrofantasma.blogspot.com



Jorge de Barros (jovem poeta) tem 29 anos, nasceu em Santo André (SP), mas, conforme os costumes nordestinos, seu “embigo” foi enterrado no terreiro de casa em Mauá (SP). Formado em Letras, leciona há seis anos. É também blogueiro, cineclubista, contista, sindicalista e estudante de Ciências Sociais. Comete versos já há algum tempo, mas vem fazendo isso publicamente no ooficiodoocio.blogspot.com



Henrique Crispim é músico, compositor, poeta e atua no Grande ABC há mais de 8 anos. Participa do Clube Caiubi de Compositores, tendo se apresentado nos Festivais Internacionais da Canção em São Paulo. Recebeu o Prêmio Cantores de Andrade e menção honrosa no Mapa Cultural Paulista em 2005 e 2006, nas categorias de Canto Coral, como regente e defendendo suas canções. Coordena o Grupo Pierrot Não é Palhaço e está produzindo o CD de seu trabalho solo intitulado o Livro de Krisna, Cristo e Dionísio, que traz parcerias com compositores e poetas da região, como José Geraldo Neres e Cláudio Willer.



Percutindo Mundos é um projeto experimental de música contemporânea caiçara que trabalha com o universo da percussão, poesia e filosofia. As composições obedecem a uma linha de percussão melódica, minimalista e tribal, refletindo a condição humana e suas relações entre ancestralidade e contemporaneidade. Márcio Barreto (composição, luthieria, voz, percussão, flauta, escaleta, rabeca), Fernando Santos (percussão), Paulo Infante (voz, percussão), Thais de Freitas (voz, percussão), Galeno Malfatti (luthieria, percussão).



Kiusam de Oliveira (Santo André - SP, 1965) - Pedagoga, bailarina, coreógrafa, Doutora em Educação e Mestre em Psicologia (USP). Atua como gestora pública na Secretaria de Educação de Diadema, arte-educadora ministrando oficinas sobre empoderamento feminino a partir da pedagogia da afrodescendência através da Dança Mítica dos Orixás. Especialista nas temáticas racial e de gênero e autora da coleção infanto-juvenil "Omo-Obás: Histórias de Princesas", Mazza Edições (no prelo).



Marcello Santos – etnomusicólogo da Caravana Cultural (Ceará) - caravanaculturalce.blogspot.com

Escrituras Editora

Rua Maestro Callia, 123 - Vila Mariana
04012-100 - São Paulo - SP - Brasil
Novo telefone: (11) 5904-4499 (Pabx)

Visite nosso site: www.escrituras.com.br

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Literatura, por quê?

Outro texto reciclado e adaptado de 2005, que é pertinente às nossas atuais discussões.


Ninguém é absolutamente sábio que tenha o domínio de todos os conhecimentos o tempo todo, ninguém é absolutamente tolo, para não aprender da forma qual for ou ensine a partir de suas experiência pessoais.


Há uma tendência inevitável de compararem-se linguagens literárias, literatura e teatro no nosso caso, porque o teatro tem reconhecimento internacional e coisa e tal, isso pode desembocar num tipo de engano. Literatura e teatro têm virtudes e vicissitudes, são artes de naturezas distintas, e interessados também distintos, embora e não raramente, existam pessoas que transitem pelas duas Artes.


O teatro trabalha com um volume de público relativamente grande para a sua fruição, tem necessidade de grandes espaços, trabalha com a ilusão em nossos jovens que ao se tornar um grande ator, entrará num mundo de riqueza e badalação, muitos enxergam no teatro o caminho para o sucesso pessoal e profissional dentro da televisão, não que haja algum pecado nisso, mas por conta disso o teatro abre em vantagem junto a um volume maior de assistentes e pessoas interessadas.


A literatura por outro lado, muitas vezes é um exercício de solidão, raro o poeta ou escritor que consegue produzir em meio a um grande público, são necessárias doses de solidão, estudo e meditação, sem que isso signifique que o poeta deva se isolar do mundo existencial. O tempo da literatura é outro, são necessários muitos anos para que um texto ou poema atinja um grande público, e no caso de países com problemas de letramento de sua população, como é o Brasil, este tempo pode se tornar ainda maior. Isso não tira da literatura a virtude de ser o aspecto cultural que conte de fato a história de um povo. A Grécia Clássica se perderia no tempo e no espaço como se perderam tantas outras culturas, se não fosse um Homero e sua Ilíada, Sófocles e seu teatro, sem falar dos pais da civilização ocidental, Platão e Aristóteles, que colocaram em letras as palavras de seu mestre Sócrates e dos fragmentos maravilhosos da lírica de Safo.


O Grande ABC é extremamente pródigo em escritores, mas muito pobre em pessoas que queiram assumir a sua história, quase todos estão voltados para fora, muitos até negam a existência de uma literatura própria da região, recusando-se a serem aqui localizados e esforçando-se para serem reconhecidos como paulistanos.


Devemos buscar também nas narrativas populares nossa fonte de inspiração, criar grupos de excelência para tornarem-se referência. Temos que tomar o cuidado de não cair em aspectos tecnicistas que vêem o mundo e as coisas apenas pelos aspectos práticos, devemos nos contrapor ao mundo que vê tudo com uma etiqueta de preço. Octávio Paz fala que a poesia, que podemos transferir com exatidão para a literatura e a arte, é a alma existente e viva de um povo, vai mais além, afirma que a civilização humana não sobreviverá ao fim da poesia. A Taba de Corumbê talvez esteja fazendo o malogro de gritar para o deserto vazio, não colheremos os frutos de nosso trabalho, mas se persistirmos veremos a transformação do mundo em algo melhor, preparamos o caminho e o banquete para os que estão por vir, prova cabal disso é hoje o convívio sem conflitos e de forma fraterna de pessoas de pelo menos três gerações diferentes, se não de quatro, onde adolescentes trocam informações e conselhos de forma igualitária com pessoas de terceira idade.


Nos últimos anos temos ouvido falar em cultura pública a palavra “descentralização” como se esta fosse a panacéia, a cura para todos os males. Ora não vamos negar os possíveis benefícios que a distribuição de aparelhos púbicos e cultura e lazer podem trazer para a periferia das grandes cidades, todo equipamento e espaço público novo é bem vindo, só que isso não pode ser realizado ao custo do desaparelhamento dos centros, da extinção de trabalhos que já estão dando certo. Temos que tomar o cuidado de não repetir conceitos de apartheid cultural e cultura de guetos tão comum aos países de colonização anglo-saxônica, que não convém e não trarão benefícios à nossa já sofrida população. As pessoas e em especial os jovens afluem quase que naturalmente aos centros das cidades em busca de lazer, cultura e diversão, dadas certas distâncias, é mais fácil tomar a condução coletiva e desembarcar no centro do que o fluxo entre os bairros, uma ação descrentalizada está fadada a influenciar e beneficiar somente o em torno imediato do equipamento ou ação. Pior ainda poderá transmitir a falsa idéia, que a periferia é seu lugar, negando-lhe psicologicamente o acesso aos espaços públicos centrais, criando uma sensação de não pertencimento, colocando em cheque o próprio conceito republicano de estado laico, de todos para todos.

Teatro versus poesia.

Estou reciclando um crônica que escrevi por ocasião da Oficina - Poéticas da Oralidade ( muitas saudades) na Escola Livre de Literatura de Santo André, uma vez que surgiu uma conversa semelhante na reunião do dia 8 de julho da Biblioteca Municipal de Mauá, sobre a insistência de algumas pessoas em afirmar que o Teatro engloba todas as linguagens artísticas, com o que não concordo.



Teatro versus poesia.

"A ciência é grosseira, a vida é sutil, e é para corrigir essa distância que a literatura nos importa."
(Roland Barthes)

“Pois me esculpi
Da carne de teu coração”
Else Lasker- Schüler

Existem questões que nunca serão resolvidas, uma delas é eterna discussão entre poetas e dramaturgos. Duas modalidades que usam a palavra escrita como ferramenta e linguagem e que por falta de classificação própria estão, digamos assim, incluídas na literatura. A construção do roteiro de um filme e ou a escritura de uma peça de teatro sempre tem que se ater a exeqüibilidade da ação dos atores, dos figurinos, do espaço cênico, da angulação da câmera, além de que o texto tem sempre um intermediário entre o autor e o público, o ator. A poesia não obedece regra alguma, sua construção é quase sempre anárquica, quanto mais o poeta se liberta de regras específicas, mais coerente com o poético fica o poema. O poeta e o dramaturgo querem chegar ao mesmo lugar, mas seus caminhos são diferentes, se uma peça de teatro obedece a uma certa lógica, o poema pela proximidade excessiva com a poesia, é tomado pela analogia, sua linguagem é uma conversa com o subconsciente e nem sempre o poeta é dono do seu texto, o poema tem uma linguagem própria, que visitará os meandros da incoerência. O dramaturgo mesmo eivado da poesia, terá que domá-la, formatá-la ao tempo da peça, a obra lhe toma mais tempo e exige um trabalho de carpintaria, existe uma luta permanente em capturar a poesia, dar-lhe forma e não matá-la. O dramaturgo caminha na beira do abismo, o poeta mergulha nele.

Na avaliação do sarau de Todas as Fomes (20/05/2006), talvez o que se estabeleça é um pouco da discussão das linhas teatro versus poesia, o diretor de teatro entende que o público tem que ser respeitado, o que está absolutamente correto, onde o poeta acredita que o público deva se preparar para a individuação que se estabelece quando se lida com a poesia. O estado poético implica em determinados estados de espírito, mas ninguém é obrigado a entrar para a religião da poesia. Atuar exige preparação e conhecimento, poetar exige contato com seu próprio âmago, naquilo que o ator é muito bom, que é o transito entre o transe e a ação, o poeta é deficiente em sair de seu próprio transe. Como não existe nenhuma verdade absoluta e entre uma maneira de ver e a outra existem diversas gradações, o que precisamos encontrar é um botão de sintonia fina, um dial para regular o possível, nossa necessidade e nosso sonhar. Devemos nos desvestir de nossas vaidades, e no processo da humildade, salvar o público dos poetas, para que o sarau não se torne chato e maçante e impedir que os diretores de teatro não dominem a cena não o tornando um grande espetáculo, com muita ordem, profissionalismo e coerência, fazendo com que a poesia fuja pela porta dos fundos.

Dois fatos se determinaram dignos de nota nesta segunda-feira fria e garoenta, a invasão ruidosa de um doido ( o que não é necessariamente problema) que queria por toda a lei monopolizar a atenção ( isto é um problema) e a maneira firme e decidida com que a Mônica resolveu o problema. Entrar em uma festa sem ter convite, ser bem recebido e ainda assim não respeitar o ambiente, a porta da saída é o seu caminho natural. Outra é a determinação do Carlos que não me convidaria para participar de seu grupo de teatro, ganhei o meu dia, não tenho a pretensão de fazer parte de um grupo de teatro, nada contra as pessoas que atuam nesta área, mas para o bem do próprio teatro o ideal que continue a minha pessoa a só fazer mal à poesia.

Poéticas da Oralidade - Casa da Palavra – 22/05/2006 – E.L.L - Ano 3

terça-feira, 7 de julho de 2009

Encontros de Cultura – Mauá – SP - 2009



Vai acontecer dia 08 de julho de 2009 as 18h00 na Biblioteca Municipal Cecília Meireles de Mauá-SP um Encontro de Cultura juntando a Coordenadoria de Cultura de Mauá e os produtores de Cultura da cidade. A reunião é aberta e todos que tiverem algum comprometimento ou curiosidade sobre a Cultura da cidade, podem e devem comparecer.

Já aconteceu um primeiro encontro no dia 1º de julho e foi muito rica a discussão, mormente a fogueira de vaidades que é conversar com artistas. Houve muita sinceridade por parte dos representantes do poder público. Faltaram algumas linguagens e o Teatro foi super-representado. Normal nestas reuniões. A Taba de Corumbê marcou sua presença.

(Quarta, 08 \07\2009, ás 18h00)

Biblioteca Municipal Cecília Meireles

Rua Rio Branco, 87 - 1º Andar –

Centro - Mauá - SP

Telefone:. 4547-1483

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Claustrofobia e suicídio.














Às vezes tenho que fugir de casa, corre pelas veias um desejo de sumir no mundo, a casa me sufoca, começa a me esmagar por dentro. Tenho uma porta estratégica na cozinha, para ficar no corredor sem o teto sobre a cabeça. Fico me imaginando se conseguir ficar mais velho (o que não pretendo), tornarei-me um daqueles cidadãos fujões, que perambulam por ai, e a família colocando cartazes nos postes, “velhinho de estimação perdido, criança doente”.


A casa nova, foi construída pensando em arejamento. Às vezes todo ar, não é suficiente. Em outros momentos vou para o quintal pequeno aos fundos da casa, onde contemplo as minguadas estrelas que conseguem furar o ar poluído de minha cidade. Fico na semi-escuridão ouvindo os insetos e a cidade como ruído de fundo, fumando um cigarro imaginário.

Minha claustrofobia é ontológica. Não acredito que haja espaço suficiente no mundo. Ainda escuto o uivo dos lobos, corro pelas pradarias nas noites escuras, e acordo assustado em uma casa que não reconheço imediatamente. Levo um tempo para que a realidade volte aos poucos, quando minha companheira me pergunta se está tudo bem.

No fundo é isso mesmo, só somos nós, o céu e as estrelas, nada de fato é importante o suficiente para nos apegarmos, nada durará para sempre, nem a nossa ilusória trajetória de vida, quiçá de poetas. Ao contabilizarmos as perdas e ganhos, percebemos que podemos viver com tão pouco que poderíamos imitar o velho rabugento Diógenes em sua barrica. Faltariam barricas no entanto. A filosofia e a poesia enriqueceriam a medida que todos ficássemos mais pobres. Que ilusão! Neste momento tenho em minha frente uma tela de LCD que tem de ser paga, um computador ruidoso que se calará se cortarem a eletricidade. Fora que tenho horror de ficar sem banheiro e sem papel higiênico. De todas as benesses da civilização, chuveiro de água quente e corrente, privada com descarga e papel higiênico, são confortos muito difíceis de se desapegar. Mas para nós que já vivemos sem estes confortos um dia, é uma questão de renúncia e adaptação. Vivemos em uma espécie de impasse, uma roleta mexicana, onde se um atirar todos morrem.

Li um artigo no Pavazine( http://pavablog.blogspot.com/2009/06/chico-d2.html), sobre suicídio, números tão alarmantes que a imprensa mundial não fala do assunto - “Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelam que cerca de 3.000 pessoas por dia cometem suicídio no mundo. Traduzindo, a cada três segundos alguém se mata.” – acomodar-se é de uma maneira algo semelhante ao suicídio, ou não. Vivemos em um mundo de alta competitividade, onde a continuar no ritmo que está, se não encontrarmos alternativas sustentáveis, o próprio planeta não suporta. De alguma maneira a própria humanidade em sua corrida desenfreada não deixa de ser suicida. A cultura da sociedade de consumo rotula e classifica as pessoas pelos seus sucessos e fracassos, coisas que são muito relativas. No fundo mesmo, queremos todos ser abraçados pela grande mãe terra, nos acomodarmos no não movimento e nos deixar ficar confortáveis.


Só não conseguiremos fugir de nós mesmos. Nosso karma está grudado em nossa pele, e se o arrancarmos sairá tudo junto. Por uma questão política e filosófica, não acredito em destino, mas existem coisas que não são totalmente explicadas. Por que este desejo pelo belo, esta coisa que nos faz avançar em terreno escuro e movediço, quando poderíamos simplesmente nos acomodar confortavelmente? Por que quanto mais fugimos de certos acontecimentos, estes teimam em nos procurar? Já não sou mais dono das palavras, a poesia me usa, e me castiga na medida das minhas incapacidades. Tenho um compromisso com o seu desenvolvimento permanente. Porque faço poesia em tempos de penúria, não sei se tenho ou terei a resposta.



terça-feira, 16 de junho de 2009

O poético e o sagrado

É complicado ter uma religiosidade oscilante em uma sociedade que prima em ter certezas únicas. Recentemente quando falei sobre eternidade em uma comunidade do Orkut, sobre a possibilidade de todos nós já estarmos mortos de uma certa forma, uma vez que nossa finitude é única certeza que existe, citei o hinduísmo e na visão que a vida e a morte são ilusões do carma (sinto-me à vontade para citar religiões em pequenos capítulos). Fui questionado quase que imediatamente sobre minhas crenças. “Pensei que os ateus não acreditavam em vida eterna”. (Frase de minha ciber-amiga Zilda.)

É sintomático que uma pessoa possa falar de Deus o quanto quiser, colocar a Sua mão em coisas das mais estapafúrdias, como conseguir destruir alguém, ganhar um concurso de miss, derrotar seu inimigo em uma guerra, justificar seus ganhos de capital, e não sofrer patrulhamento ideológico por isso. Somente em um círculo com pelo menos setenta por cento de não teístas que isto pode acontecer, mas é mais fácil que os que pensam diferente, sejam indiferentes à uma declaração destas. Declaro-me ateu na maioria das vezes, quando se discute religião ou religiosidade, uma vez que é mais fácil explicar-se sem mais delongas, e não tenho que ficar dando explicações sobre o que acredito. Sou agnóstico, se é que isto seja possível, o ateu tem certeza da não existência do sagrado assim como o crente (de qualquer religião) tem esta certeza. Eu não tenho certeza de nada. Acredito na razão e na ética, e para mim é impossível conceber a divindade, principalmente da forma como os monoteístas a colocam.

Minha experimentação com o sagrado, se dá através da poesia. Da possibilidade da criação com a palavra ser a criação do mundo. Em muitas culturas o momento sagrado da criação do universo se deu por um som. Não há nenhuma mistificação de minha parte com isso. A poesia e a música, sua prima, sempre estiveram lado a lado com o sagrado, em todas as nações e em todas as crenças. Quem não se emociona com as canções egípcias ao Deus Sol? O professor Antonio Fernando Stanziani nos colocou em um curso da Escola Livre de Literatura de Santo André, quando falava de mitos, que a experiência com o campo do sagrado na modernidade se dava não pela certeza, mas pelo fato de podermos transitar entre os mitos. Saltamos de um mito ao outro conforme nossa necessidade ou conveniência. Faculta-nos adaptarmos o mito à nossa necessidade e não o contrário, sendo assim não vejo ambigüidade em não acreditar em nada e ao mesmo tempo flertar com o sagrado quando tenho esta necessidade. É-me confortável esta situação.
Sobre a eternidade posso dizer. Vivemos eternamente em nossas obras e na lembrança dos entes queridos. Vivemos eternamente em nossa descendência (tendo em conta que desde a primeira célula viva, somos descendentes diretos e nenhuma geração falhou em ter descendentes). Acredito que vivamos um pouco em nossos filhos, netos e se conseguir viver para tanto, em nossos bisnetos. (Dá gosto de ver o orgulho de meu pai ao brincar com o bisneto.) Minha pouca religiosidade é o xamanismo, acredito no poder da ancestralidade. E na obrigação que carrego para com esta.

Além do que, existem outras vidas eternas além do monoteísmo. Os nórdicos acreditavam no Valhala (mais fácil de aceitar para mim). Os hinduístas e budistas acreditam que dissolvamos no Nirvana. Para as religiões animistas sempre foi e sempre será.

Nossa consciência não perdura. Mas aquilo que fazemos terá conseqüências para sempre.

E toda esta discussão surgiu em torno do verso do poema de Fernando Pessoa,
- "Navegar é preciso, viver não é preciso." – musicado magistralmente por Caetano Veloso. Gosto muito da ambigüidade deste verso, preciso, pode ser na medida exata, como pode ser necessidade. E podemos trocar o sentido quando quisermos. Frases soltas e fora de seu contexto original podem ser mal interpretadas e criarem dubiedade quanto ao seu significado ou sentido. Não no caso de um verso de um poema, muitas vezes ali naquele pequeno trecho está contida uma verdade universal, Bachelard, em sua obra, e não em uma frase, nos coloca que as ciências e principalmente a filosofia tem muito a aprender com a poesia.

E existem frases lapidares que em si trazem grande conhecimento, a sabedoria de Delphos, templo de Apolo da Grécia, se resumia na frase, "conhece a ti mesmo". Há como negar a sabedoria contida neste fragmento? Não nos chegou nenhum poema integro de Safo, mas pelas miríades de pedaços que pudemos alcançar, nos apaixonamos por sua obra.

É fantástico o que algumas pessoas conseguem, ao criar uma frase atemporal, que faz sentido mesmo em face de um possível envelhecimento. Fernando Pessoa para mim em especial, é um ser transcendente ao seu tempo e lugar. Tudo o que falamos e fazemos é intertextual, de alguma forma já foi visto, pensado, escrito, os discursos políticos e filosóficos podem ficar datados, a boa poesia não.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Maré baixa













Já se vai um mês desde a última crônica postada no blogue, tive uma série de idéias, mas nenhuma de fato se materializou. Isto está como a minha vida, tenho uma série de idéias mas nada levado à termo. (Minha companheira já anda me ironizando, pois a tudo que ouço, afirmo, isto dá uma crônica.) Ruim, não necessariamente, tenho mais medo dos que tocam a vida pela urgência, do que pelos que deixam a água do rio correr. Lembro do barqueiro amigo de “Sidarta” ( de Hermann Hess), ouvindo o rio lhe dizer as coisas, e sendo filosoficamente indiferente a tudo. Apressamo-nos em viver com velocidade de modo que a morte chegue logo. No fundo a sociedade de consumo é um culto à morte. Quero mudar isso, ou não me importo mais com isso, algo assim.

Temos nos reunido com uma certa regularidade, nós entenda-se pelo grupo literário Taba de Corumbê (http://tabadecorumbe.blogspot.com), o que tem sido um bom exercício para a mente, bons motivos para escrever mais, mas no entanto ainda não foi o suficiente. Tenho mantido uma distância segura das ações do grupo. Sou um bom ouvinte. Reunimo-nos aos Domingos á tarde em uma sala do Teatro Municipal de Mauá, para discutir poesia, o que já esbarra no surreal o suficiente. (Enquanto o mundo assiste o Faustão, nós ouvimos Augusto do Anjos. )

Ainda reverbera minha última crônica, que gerou até um novo blogue entre amigos (http://sapateirosdepalavras.blogspot.com/). Fico imaginando as palavras escritas, mas não sento diante do computador e escrevo. Quantas palavras e frases concebemos na vida e não a pomos a termo. É assim com poemas também, maré baixa, como se a Lua não pudesse arrancar do subconsciente todos os poemas que estão lá escritos e catalogados. Só esperando vir à luz do papel, e depois, é torcer para um dia ter um leitor que o reviva. As vezes, e não poucas vezes, fico meditando do porque desta faina inútil que é escrever poesia. Por outro lado, se não escrever o que acontece? Muda também alguma coisa o silêncio? Ou assim como a voz aberta falando à poucos não muda o mundo, menos ainda o fará o silêncio. Ao menos serve o poema ao desabafo, e se nem isto, à industria de papel e tinta, tem que sobreviver os operários das gráficas, imprimam em papel e tinta, acumulem os livros nas prateleiras, quem sabe alguém um dia os lerá.


Tenho me tornado cada vez mais um ermitão, não destes que vivem no deserto, mas dos que tem o deserto dentro de si. A minha solidão em alguns momentos é tão sólida que posso tocá-la. Tem um quê de aceno de quem se despede no balaústre do navio, quando está já ao mar. No entanto toda essa fala é uma vergonha, uma vez que estou cercado por quem amo, e que me ama. (Meu neto sozinho é capaz de ocupar bastante espaço, físico e ou emocional.) Mas o vazio insiste em me acompanhar aonde vou. Sinto-me muitas vezes um exilado, como se não fizesse parte deste país. Luto para não me ancorar dento de casa e pregar as janelas como um conhecido meu fez. Além do que sofro de claustrofobia, tenho que tomar ar de tempos em tempos, senão a casa me esmaga.

E tudo o que escrevi me lembra Alice Ruiz, “Socorro, eu já não sinto nada...”

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Convite (para todos) e convocação (para os membros da Taba).

Domingo agora, dia 31 de maio de 2009, a partir das 15h00, acontecerá a Oficina de Poesia do Grupo Taba de Corumbê no Teatro Municipal de Mauá. Estes encontros tem acontecido regularmente e o próximo será dia 14/06/2009; marquem na agenda.

Encontro em clima descontraído, mas com muita seriedade, com o objetivo de reforçar os laços de amizade dos escritores da cidade e convidados, além de análises e troca de informações sobre nossa língua, poesia e literatura. Tragam seus poemas para leitura, e ou se estiverem preparados, para realização de analise pelo grupo. ( Trazer umas vinte cópias dos textos para distribuição e leitura entre os participantes.)

(Domingo, 31\05\2009, das 15H00 às 17H00)
TEATRO MUNICIPAL DE MAUÁ
Rua Gabriel Marques, n.º 353 - Centro – Mauá – SP (Acesso também pela Avenida João Ramalho, 456.)



Maiores informações:.

camargoeb@ig.com..br

http://tabadecorumbe.blogspot.com

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Roda de conversa com o escritor José Geraldo Neres, Câmara Municipal de Mauá.

23 de maio de 2009, sábado (gratuito)
Horário: das 18h à 19:30

Roda de conversa com o escritor José Geraldo Neres
e Lançamento do livro: Outros silêncios

Apresentação/Mediação pelo poeta Edson Bueno de Camargo

O autor, Leitor, Influências e Processo criativo.

Local: Câmara Municipal de Mauá
Av. João Ramalho, 305 - Vila Noêmia, Mauá - SP
Informações: (11) 4512-4500, 4512-4539, 4512-4519

domingo, 17 de maio de 2009

ENTREVISTA DO POETA EDSON BUENO DE CAMARGO CONCEDIDA AO JORNALISTA ARISTIDES THEODORO





Aristides Theodoro - TH - Edson Bueno de Camargo, para início de conversa, alguns poetas de Mauá, vem se destacando nos últimos tempos e arrebatando Prêmios valiosos em várias latitudes e longitudes destes brasis. Tais como você, Iracema M. Régis e Jorge de Barros.
Gostaria que me falasse um pouco disso. Afinal, no seu caso específico (o mais premiado), você se considera um gênio? Uma espécie de bam-bam-bam da vila? Trabalha muito, participa de todos os concursos ou qual o segredo da coisa?...Ou afinal, debaixo deste pirão tem godó?...

Edson Bueno de Camargo - EBC. – Primeiro, tive de fazer uma pequena pesquisa etimológica para descobrir o que é godó, para saber que na Bahia há uma distinção entre o pirão feito de farinha e o feito com banana-verde. Godó é pois, pirão de banana-verde, feito com carne na Bahia e com peixe pelos caiçaras paulistas.

Segundo, não me acredito melhor que ninguém, acredito que tenha mais prêmios por que concorri mais. Na artilharia militar se diz que se acerta o alvo por duas razões, uma por precisão e outra por saturação, se atira tanto que uma hora se acerta.

Prêmios e concursos literários são como uma espécie de loteria, existem diversos fatores que os regem e a lógica, não é um deles. O que não funciona também é o sujeito entrar com uma poesia concretista num festival de poesia matuta, ou vice-versa, é certo que não dará resultados. Por outro lado, acredito que minha poesia está mais madura e senti a necessidade de testá-la de alguma forma, os juízes dos concursos são menos gentis que os amigos, e não estão ali para nos agradar. Alguns prêmios foram realmente importantes, como o OFF-flip de Paraty e o Helena Kolody no Paraná (que já premiou algumas feras), o que nos faz acreditar que devemos estar mais ou menos no rumo certo. É claro que mexe um pouco com nossa vaidade, uma coisa que me deixa muito feliz é que no primeiro Off-Flip, havia dois pés de barro na final, meu poema em primeiro e o do Jorge de Barros em quarto, entre representantes do Brasil inteiro e até de fora, faz pensar melhor no que se produz em nossa cidade.

Quanto à genialidade, cria-se aqui um grande complicador, pois não acredito em genialidade na arte, acredito em estar sempre estudando, aprimorando-se, lendo muito.O próprio sentido na origem da palavra arte, tanto quanto do da palavra poesia, quer dizer trabalho realizado. Não funciono com inspiração, portanto, todo poema para mim é um grande desafio. Existem pessoas em processos diferentes de escrita, existem estilos diferentes e maneiras diferentes de se expressar. Engana-se quem fala que este ou aquele estilo é o correto. A verdadeira poesia é um processo alquímico, como nos diz Rimbaud, que nos transforma de dentro para fora. Não acredito que seja possível uma única verdade na poesia.

TH – Você nasceu em Mauá?...

EBC- Tudo em mim se refere a Mauá, fui concebido e fabricado pela minha mãe nesta cidade, portanto meus elementos primordiais são oriundos de Mauá, a água que preenche meu corpo veio das minas da velha Vila Vitória, meu eu mineral é mauaense. Cresci dentro de minha mãe rodeado por uma fábrica de porcelana de Mauá. No entanto no momento de meu nascimento, não me encontrava aqui, por uma contingência nasci na Rua Senador Flaquer em Santo André, em um Hospital que não está mais lá, o Pro-Matre. Nasci andreense e fui registrado no mesmo cartório que o poeta Zhô Bertolini.

TH – O que você acha dos movimentos poéticos em Mauá, dos quais você vem participando desde o Colégio Brasileiro de Poetas?...

EBC – Mauá tem uma história de pioneirismo, muitas e muitas coisas aconteceram aqui primeiro, o Fora-Collor, o movimento contra a carestia, o primeiro caso de gripe suína em São Paulo, e por ai vai. Aqui surgiram ou se manifestaram grandes escritores e artistas, mas afora este pioneirismo, parece que sofremos a maldição de recomeçar eternamente. Fazer arte na cidade parece uma tapeçaria de Penélope, o que se fia em um dia, se desmancha à noite, para se fiar de novo no outro dia. Por um estranho mistério não criamos referências.

Minha experiência no Colégio Brasileiro de Poetas, que vamos ser sinceros é um nome pomposo e muito pretensioso, foi muito rápida, era muito jovem e o Colégio agonizava, aprendi muito com o poeta Castelo Hanssen, foi o primeiro lugar que tive contato com a poesia viva, fora dos livros. O que me incomoda é que muitas coisas boas foram realizadas, no entanto no processo histórico parece que não se criaram sucessores. Aos olhos dos mais novos é como não se existisse nada e tudo tivesse de ser realizado. Há um passado glorioso, mas não há futuro.

Creio que não só eu tenho participado de tudo que se faz em nome da literatura na cidade, mas uma meia dúzia de teimosos que sempre marcam cartão. Temos uma dívida com o Guilherme Vidotto Jr. e seu mestre o Luis Alberto de Abreu, que reuniu na Oficina Aberta da Palavra pessoas de diversos segmentos, o que acabou agregando várias pontas soltas, e gente mais jovem que vinha chegando. Isto possibilitou o Taba de Corumbê, que esta ai. Balança mas não cai.

TH - A seu ver, o poeta deve transmitir alguma mensagem, como La Fonteine nas suas fábulas, ou deve fazer unicamente a Arte pela Arte?...

EBC – Nem uma coisa nem outra. O poeta, não importa que poesia ele faça, não está desconectado com o mundo que o cerca. Elias Canetti diz que o poeta é o cão do mundo, e é o que penso também, mesmo que de uma forma inconsciente somos arautos do novo porvir, criadores de utopias, saudosistas desenfreados de um tempo idílico (que quase sempre nunca existiu). E tudo isso não vale uma moeda de cinco centavos de cobre, daquelas que ficam quase irreconhecíveis com o tempo.

Pessoas que tentam transmitir mensagens construtivas e lições de moral em suas obras, acabam por cair em uma pieguice sem fim, ao mesmo tempo existe um patrulhamento ideológico que taxa de panfletária toda e qualquer obra que toque nas questões sociais do país. Já vi frangotes mal saídos da USP, fazendo versos imitando o Haroldo de Campos, sem a menor qualidade ou compromisso, “dando o pau” em Neruda (ou mesmo Drummond) pela “irregularidade” de sua obra, e na sua opção pelo engajamento político. Patativa do Assaré nunca teve uma carteirinha do Partidão, nem teve um nítido direcionamento político, mas sua obra é um libelo do sofrimento de seu povo. Pound fala em antena da raça, nós o somos mesmo quando não percebemos, e digo que são todas as pessoas, o poeta é aquele que por uma razão misteriosa está mais sintonizado.

TH - Os pitacos da crítica te incomodam?...

EBC – Adoraria receber um crítica autorizada, oficiosa, em um jornal ou coisa assim. Se falassem de mim, mesmo que mal, é sinal que estava incomodando. Vivemos em uma época, que se você está fora da mídia é como se não existisse. Mas invisibilidade à parte, existem críticas e críticas, faço uma obra aberta, de forma nenhuma acabada, ela só existe se o leitor se apossar simbolicamente do que está lendo. Existem bons amigos que apontam inconsistências e outras possibilidades de verso. Existem pessoas que só querem fazer polêmica sem construir nada.

Incomoda-me donos da verdade, que nunca encontram o que os satisfaça, só é certo o que eles fazem, ou você se torce à sua verdade, ou não vale nada. Existem dois tipos de donos da verdade e não sei qual é o pior. Um é o que vive pela forma clássica, que só Petrarca sabia o que estava fazendo, versos sem rima e métrica não são poesia, os parnasianos é que eram os bons, etc. etc. O outro igualmente chato e equivocado, é aquele que traz a última moda de Paris ou Nova York, que traduziu aquele poeta obscuro do Azerbaijão, que só ele conhece, mas que vai revolucionar toda a poesia, e que tudo o que existiu antes não tem nenhum valor. A poesia é muito maior do que nós e nossas pretensões, bebo do surrealismo o que ele pode me dar, em Gregório de Matos que tem muito a ensinar, tantos outros exemplos que tornariam esta dissertação em um enumerar de nomes infinito, e os poemas despretensiosos e maravilhosos de uma Dona Mariana Canova por exemplo.

TH – Sofre influência de alguns escritores? Se positivo, quais deles?...

EBC – O poeta Cláudio Willer, para começar a citar, fala que toda a escrita é intertextual, quer dizer, um texto sempre se origina em outro texto e assim sucessivamente. Então a partir deste princípio tudo o que escrevemos é influenciado por outrem. Mesmo quando não temos a consciência exata disto. Meu primeiro contato com a poesia, foi a minha vó materna recitando Olavo Bilac e Rui Barbosa, isto afinou meu ouvido para a poesia. Sou um leitor sem o menor direcionamento, leio tudo que me cai às mãos, e tudo o que acumulo em meu subconsciente é matéria prima para minha poesia. Posso afirmar então, que o tiozinho falando de sua vida ao amigo no trem influencia minha obra. Existem poetas primordiais, e impossíveis de não serem citados: Cecília Meireles assombrou minha adolescência; Castro Alves e Casimiro de Abreu deixaram suas marcas; Mario Quintana e seu poema faca e ternura; Castelo Hanssen e sua poesia triste e muito bem realizada; os portugueses Herberto Helder e Mario Cezariny; a prosa de Érico Verissimo; Cora Coralina que tudo transformou em poesia, Cezar Vallejo e sua poesia andina e feita de velhas índias e pedra, Victor Jara e os cantores andinos da Nueva Cancion Chilena. Fora que estou preparado para ser influenciado a qualquer momento, gosto de tudo aquilo que me toca.

TH - Escreve a quanto tempo?...

EBC – Como a primeira coisa que posso chamar de poema escrevi aos treze anos de idade, posso dizer que escrevo a pelo menos trinta e três anos. É muito tempo para uma pura teimosia.

TH – Re-trabalha muito os seu textos ou vai querer me dizer lorotas, como o Guimarães Rosa , que dizia que os seus textos já vinham prontos, como se soprados por um anjinho barroco de bunda rosada?...

EBC – Existem poemas que nascem quase prontos, mas são muito raros, e mesmo estes precisam de uma burilada, sempre há uma palavra que sobra e outra que falta. Embora escreva parecido, não posso ser considerado surrealista exatamente por este detalhe, os surrealistas não admitiam quaisquer retoques. Há poemas meus que começam de um jeito e nunca se sabe no que vai dar. Há poemas que paro de mexer pelo cansaço, pois tem uma hora que devemos dar um basta.

Penso que poetas ou escritores que dizem que o verso já nasce pronto, sejam donos de uma memória prodigiosa, e re-trabalham a palavra dentro de seus subconscientes. Não é o meu caso.

TH – Quantos livros já publicou?... São todos de poesia?...O por que de alguns títulos compridos e inusitados de seus livros?...

EBC – Foram três livros individuais, pela ordem: “Poemas Do Século Passado – 1982-2000”; “O Mapa do Abismo e Outro Poemas”; o último “De Lembranças e Fórmulas Mágicas”, todos de poesia. Não existe um motivo em especial, no primeiro fiz uma brincadeira com a passagem para o século XXI, era um livro que precisava ser localizado no tempo; o segundo é um título de um poema e os outros poemas um material que agreguei no livro que achei que merecia ser publicado; o último trata da memória sensível, e que quase sempre é mágica pela visão da criança. Além do que a moda agora são títulos de uma única palavra que quase sempre não significam nada.

TH – O que acha do Movimento poético hoje desenvolvido em Mauá? As Oficinas de conto, poesia, hai-kai e História da Arte, ministradas por gente como o professor de filosofia, Paulo Hijo e as professoras Deise Assumpção, Vitória Paterna e o mestre Ubirajara Godoi Bueno?...

EBC – Não posso falar das oficinas de contos, pois por motivos de horários coincidentes, não freqüentei nenhuma. Mas os encontros de Domingo estão sendo muito proveitosos. Sinto falta da garotada mais jovem, que é menos freqüente, estes teriam mais proveito dos bate-papos. Sinto falta dos saraus no Museu Barão de Mauá, e de um movimento de fato, mas não sei exatamente o que. O fato também é que eu estou em um momento de influxo, e posso estar vendo as coisas pelo meu ponto de vista.

Preciso ouvir mais o Paulo Hijo para entender o que ele quer, percebo de antemão que nossas visões sobre a filosofia são diferentes, não necessariamente divergentes, mas de pontos de vista não lineares.

TH - Fale-me um pouco do FAC - Fundo de Assistência à Cultura de Mauá, onde você já fora contemplado duas vezes?...

EBC – È uma experiência muito válida, pois passa o dinheiro direto ao produtor cultural, se houvesse mais dinheiro seria melhor. Em geral as cidade tem leis de incentivo, onde há um mecenato intermediado pelo governo, mas é o artista que tem que correr atrás, no caso de Santo André por exemplo, o artista vira um cobrador e de impostos atrasados. O que é muito válido no FAC é ser um financiamento direto. Acredito que faltam alguns acertos, por exemplo, quase não são contemplados artistas plásticos.

Meus dois últimos livros só foram possíveis pelo FAC. Apresentei o projeto que foi aprovado e o resultado foi muito bom. Posso dizer que através de meus livros levei a cidade ao Brasil inteiro. Só tenho receio que o setor de finanças da Prefeitura cresça os olhos neste pouco dinheiro que vai para os artistas e tente dar outro destino ao mesmo.

TH – Qual a sensação em comandar culturas numa cidade como Mauá, coisa que você já atuou na área e sabe muito bem do que queremos falar?...

EBC – Foi só um ano, e no final do mandato, em meio a uma tumultuada transição. Se quer saber a sensação, é a de absoluta impotência, a de atuar em um setor que você sabe ser de suma importância, mas que não é devidamente valorizado. A primeira verba a ser cortada na crise é a da Cultura, sempre tem dinheiro para shows sertanejos, mas te falta uma lata de tinta para recuperar um praticável. As pessoas, e ai não excluo o povo, acham que cultura é prédio, uma biblioteca é inútil se seu acervo é defasado, um teatro é só uma casca vazia sem artistas e platéia. Nossos governantes, e aqui só excluo o falecido Celso Daniel, são muito ignorantes, pessoas muito bem intencionadas, mas de uma realidade que só vê o palpável, pedra é pedra, pão é pão, e sabemos que na arte as coisas não são bem assim. Infelizmente para pessoas ignorantes ou chucras o que elas não conhecem, não existe.

TH – Possui alguns livros inéditos, ou em preparação?... Se sim, quais os títulos e quando pretende publicá-los?...

EBC – Tenho três livros inéditos, “O Zen e a Arte de cultivar papoulas em noites de lua cheia em jardins a beira mar.” – hai-kais; “ (índex animi) O Espelho da Alma ou Poemas do Novo Século” – poesia; “Muitos Morreram por Esparta” – poesia, sendo que o último estou pensando em mudar o título para “Fel e Vinho”. Estou trabalhando no livro de poemas “Teluricomancias”, não sei se vou publicá-los, tudo é uma questão de oportunidade. Não tenho grandes ansiedades em relação à publicação, tenho publicado muito na Internet, em revistas literárias on-line. Tenho também dois blogues, um de poesia e em outro onde tento exercitar a prosa.

TH - Lê muito, quais seus tipos de Leituras?... Seus poetas prediletos?...

EBC – Leio de tudo o que me cai às mãos, jornais , revistas de literaturas, história em quadrinhos, de livro pornográfico à bula de remédio, placa de trânsito à placa de carro. Gosto muito de ler gente nova, de descobrir poetas que não são tão novos, mas que por alguma razão não conhecia. Leio muitos blogues na Internet, não gosto muito de ler romances ou crítica literária. Leio muita poesia. São muitos os meus poetas prediletos, existem poemas que são essenciais em minha vida. Mas posso destacar neste universo, Murilo Mendes, Mario Quintana, Paul Celan, Mário Cezariny e Herberto Helder.

TH – Que acha da região do ABC paulista (este ABC Paulista), muito ironizado por alguns sabichões, donos das verdades máximas absolutas da região? O paulista é para diferenciar de um outro ABC, um conjunto de cidades da grande capital pernambucana.

EBC – Tem um grande ABC no Pernambuco também? Oxe! A região do Grande ABC carece de uma identidade cultural, temos que quebrar o estigma de sermos vizinhos da Capital, onde tudo acontece segundo alguns sábios. Tem muita gente boa, grandes produtores, mas nada que nos agregue. As iniciativas são sempre isoladas e circunscritas a cada cidade. Fulano de Santo André não se mistura aos pobres de Mauá, que por sua vez é esnobado em São Bernardo que é caminho para São Paulo. Em Diadema se arrotam os únicos produtores de Cultura e Cidadania do mundo, enquanto iniciativas maravilhosas minguam aos olhos de todos, porque os novos governos não querem dar glórias aos que passaram. A cada quatro anos acontece uma hecatombe, onde todas as iniciativas governamentais voltam a zero, e recomeçam do nada. Junte-se a tudo isso os prefeitos chucros que citei anteriormente, e temos o quadro completo. O único jornal forte da região, talvez o mais forte jornal regional do país, fala menos da cultura local que o Jornal Sul de Minas, onde somos reverenciados pelo poeta Zanoto. Recentemente uma jornalista do Diário do Grande ABC disse que não existe cultura de qualidade na região. Enquanto isso os artistas da região ganham prêmios nacionais e estrangeiros sempre se valendo das iniciativas pessoais.

TH – Que me diz do livro bem confeccionado, com boa capa e desenhos condizentes?
Por outro lado, somos privilegiados. afinal, temos excelentes capistas e ilustradores no nosso meio, bem como revisores,diagramadores, etc.

EBC – Um livro é nosso melhor cartão de visitas, o seu conteúdo sempre deve ser mais importante que a aparência, mas um livro bem feito sempre atrairá a atenção de um leitor. O leitor deve sempre ser o objetivo final de um livro, um livro é para ser lido.

Não há dúvida que somos privilegiados, e que mostra um caminho a seguir, artistas de vários segmentos devem se conversar mais, um sempre poderá influenciar o outro.

TH - Bem seu Edson Bueno de Camargo, por que basta, “que ninguém é de ferro”, como dizia o grande poeta pernambucano, Ascenso Ferreira. Portanto diga uma mensagem de otimismo para os novos poetas e fica o restante de sua verborragia, para quando você receber o Prêmio Nobel de Literatura, ok?...


EBC – Não sou a pessoa mais adequada para dar mensagens de otimismo, pois sou um pessimista crônico. O que falo aos jovens poetas e escritores, é que leiam muito, e se leiam muito também, escrevam o tempo todo, e nunca se dêem por satisfeitos. Queiram sempre mais do mundo e de si mesmos.

Quanto ao Nobel, se contentem com o fato do Saramago ser um escritor de língua portuguesa, nunca um brasileiro receberá o Nobel. Os suecos não nos levam à sério.

Aristides Theodoro é escritor e jornalista e assina uma coluna no Jornal "A Voz de Mauá".