CASA DA PALAVRA – ESCOLA LIVRE DE LITERATURA
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16/12/2009, às 19:00h
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Coletamos na praia tudo o que nos sobrou realmente. Tudo é útil quando é pouco, tudo é necessário quando é único.


Qual o decoro estabelecido para uso de roupas? Ponderemos: em países islâmicos, de rígidos costumes morais e pouco respeito às mulheres, a roupa ideal é a burca, e suas variações, que começam por cobrir sempre a cabeça, ou o corpo todo. Cada povo tem seu costume, e não serei eu que dirá o que é certo ou errado. Mas os que estes países tem em comum é o fato de serem muito pouco democráticos e onde o estado de direito é muito pouco respeitado. Alguns grupos acreditam-se no direito de intervir na vida de todas as pessoas, países como a Arábia Saudita sequer tem uma constituição e é uma monarquia absolutista e medieval, das que desapareceram do mundo ocidental após a Revolução Francesa.
Costumes com vestimentas mudam com o tempo, antes de 1800, uma mulher decente jamais usaria uma calcinha, coisa de mulher mundana, botões nem pensar, as roupas eram quase que costuradas sobre o corpo. Nunca lembro de visto os cabelos de minha avó soltos, sempre cobertos por um lenço. No Brasil até os anos 50 e mesmo depois disso, uma mulher de calças poderia ser presa, e com certeza seria hostilizada na rua. E é ai que quero chegar.
Acredito ser o Brasil um país constitucional, onde bem ou mal, funciona o império da Lei (ou deveria), há sempre o que se melhorar, mas se compararmos a linha do tempo, veremos que já foi pior, e bem pior. Existe na Constituição o claro direito de ir e vir, e o de nos portarmos conforme nos for conveniente e confortável. Graças a todos os deuses, não temos leis de costumes, que nos indicam o que vestir, o que comer, aonde ir. O que aconteceu na UNIBAN, vai além do lamentável, cai em um terreno muito perigoso, pois por um lado a universidade condena a vítima e valoriza o ato criminoso( preparem-se, a próxima vítima dos TaleBans furiosos pode ser sua filha). E por outro perpetra o ato nefando da violência contra a mulher, nossos jovens lamentavelmente estão eivados de um veneno que se chama machismo, onde um homem tem mais valor que uma mulher, algo que fere a Lei e o bom senso ao mesmo tempo, um câncer que já deveria ter sido extirpado a muito tempo do seio de nossa sociedade, mas como o nazismo e o preconceito, seus subprodutos tóxicos, parece que renasce todo dia como a cabeça de uma hidra de Lerna.
Lembremo-nos, quando uma mulher é agredida, todas as mulheres o são.

Lembro do dia em que definitivamente percebi que nunca seria cristão, quando me conscientizei que a máxima, "ama ao próximo como a ti mesmo" era a espinha dorsal do cristianismo e descobri que não me amava. Ao contrário me odiava de morte. Passei a puberdade me odiando e querendo morrer a cada esquina, a cada espinha, a cada quilo que engordava inexoravelmente, a cada fantasia de rejeição, ao fato de ser feio e desajeitado (como se todo adolescente não fosse), ao de ser um fracassado no esporte, às complicações inerentes da idade e que ninguém nos contava que era natural. Odiava o fato de enxergar mal e cada dia ver menos. Odiava ter a compreensão do mundo dilatada, embora equivocada, e de ser mais inteligente que os outros, e sentir uma fome inesgotável de conhecimentos. Odiava aquele deus mal e cruel que em tudo colocava o dedo e sempre dava as piores soluções. Odiava minha sensibilidade e tinha um medo terrível de que isso significasse uma menor virilidade. Escrevia poemas escondido, às escuras, às avessas. Lia com uma devoção religiosa, mas passava por idiota para não ser notado em minha intelectualidade. Não sinto a menor saudade de minha juventude, eu era infeliz e sabia.
Mas se não nos amamos, como amar o outro? Como ver o outro como bom, se assim não nos vemos? Não é possível a compaixão sem amor.
O tempo é o único senhor do mundo, e diante dele tudo se dilui, os ódios arrefecem, as iras se aplacam, o medo cansa. Aí nos entregamos à vida como ela é, simplesmente ser, sem sentido algum. Algumas pessoas mergulham no abismo, e cessam, outras o escondem sob o manto da fé, pois sabemos que contemplá-lo é muito doloroso. A outros cresce dia a dia uma indiferença, que se não é a morte, é como se fosse. Hoje ainda não me amo, mas isto não importa mais. Felicidade é um momento e um estado de espírito artificial, a tristeza nos torna mais alertas e conscientes de nossa vulnerabilidade.
O conceito de beleza da sociedade ocidental, se baseia na punção de morte. Eros cede cada vez mais espaço a Tânatos. Dentro do princípio que não há mais passado, porque se busca o novo o tempo todo, e é negado o futuro, porque o que importa é só o hoje. A partir deste pensamento que se pode moldar e traçar metas irreais de corpo, como se pudéssemos colocar as pessoas em formas e torná-las uniformes. E mesmo que isto fosse exeqüível, não é esse o objetivo final. A meta final da sociedade de consumo é que todos sejam infelizes, e incomodados com isso, e que preencham sua necessidade de felicidade eterna com produtos de consumo. Ser feliz é ter o carro tal, com itens, que, provavelmente, passada a euforia original da novidade, nem sejam utilizados. Ser feliz é imprescindível, pague-se o preço que se pagar por isso.
Lojas da moda, mesmo as mais populares, trabalham com o conceito das pessoas comprarem roupas para usarem pouco e descartarem. Tudo passa a ser item de consumo, mesmo coisas básicas como o vestir. Pessoas de meia idade com o peso acima da média, e que compram roupas para vestir e não ostentar, como meu exemplo, dificilmente encontrarão o que lhes caiba nestes lugares, os tamanhos diminuíram e não foi só eu que aumentei. Tive o disparate de comparar uma roupa extra-grande com uma G, e não GG, que tinha das minhas camisetas velhas e a G antiga era maior.
Existe na mídia toda uma pseudociência, anunciando os malefícios da obesidade, médicos da moda, que são notadamente embusteiros a procura de notoriedade e dinheiro principalmente, colocando inverdades como verdades absolutas e omitindo estudos que comprovam que as pessoas adoecem, não importa sua massa corporal. Há gordos e magros, com câncer, diabetes e problemas de coração no mundo. Não posso negar que a obesidade em certo grau é um complicador para a saúde, mas temos que tomar cuidado com as mitificações, doenças genéticas ligadas a marcadores nos cromossomos estão sendo equivocadamente relacionadas com a obesidade. No passado ser gordo era bom perante a medicina, hoje é mal, nos dois casos há um erro de conceito, um bom médico é o que avalia paciente por paciente, não por baciada. O gordo é o novo leproso que deve ser banido da sociedade.
As pessoas e nós morremos porque somos factíveis, é a única certeza que existe, a mídia usa isso o tempo todo, mas de forma distorcida, “aproveite enquanto se é jovem”, “ viva a vida, e tome Coca-cola”. No entanto o outro lado da moeda fica meio obscuro, crianças fazendo cirurgias plásticas, escravas de uma indústria da moda cada mais selvagem em seus hábitos, cada vez mais pedófila e deformada em sua sexualidade. Há um mundos de tarados e desviados sexuais dominando a mídia, e tudo parece bonito aos olhos de todos se veiculado a exaustão.
Na educação escolar nos deparamos com uma situação de intolerância extrema, o estranho, o diferente, o disfuncional é tratado com crueldade, violência e estranheza. Como se não enxergássemos nossas diferenças ao nos olharmos com o devido cuidado, e o que nos torna mais humanos é isso, a possibilidade da multiplicidade. O despeito e a inveja são os sentimentos que substituem, a compreensão e a solidariedade. E tudo isso permite, que nossos opressores, que são invisíveis o tempo todo e desconfio que sejamos nós mesmos (pois afinal quem sustenta a televisão e tudo mais, não somos nós mesmos?), operem como toda a liberdade. Há uma caça às bruxas aos políticos maus e corruptos, como se estes fossem uma classe a parte da população em geral, como se não fornecêssemos os nossos próprios filhos para este extrato social, como se a classe média infeliz e desejosa de compensações, não sustentasse o tráfico de drogas comprando-as.
Há um novo mito que surge, a do jovem invulnerável, imortal e imoral, eternamente jovem e belo, um narciso corrompido pela húbris, com suas motos possantes vazam faróis vermelhos, com seus carros incrementados estacionam nas vagas dos deficientes, usam esteróides para adquirir massa muscular, passam horas em frente a espelhos e nos vendem esta imagem como o protótipo do perfeito. E todo um exército de seguidores fiéis, que não tem os carrões nem as motos, mas tentam imitá-los na medida do possível. Em resumo é a idealização da imbecilidade. Por outro lado as mocinhas passam fome, usam roupas desconfortáveis, e se resumem cada vez mais em uma vagina onde os “bombados” depositam suas frustrações. Em relações sexuais cada vez mais focalizadas no órgãos sexuais, a nova opressão é mostrar o sexo em tudo até que se enjoe do corpo, o corpo é para mostrar não para se desfrutar; é o totalitarismo do falo. Mesmo as mulheres passam a ter um comportamento fálico, andrógino e violento.
Ai da poesia que é uma ferida de Narciso, mas daquele que se contemplava nas águas plácidas do lago, o espelho hoje é o outro, de quem importa-se só a admiração. As pessoas precisam parecer belos e não se sentirem belos.


O movimento foi criado pela norte-americana NOW – National Organization for Women (Organização Nacional das Mulheres). Em 1998, alarmada pelo índice cada vez maior de mulheres que desenvolvem problemas alimentares — sem contar a sensação psicológica de exclusão dos padrões –, a instituição sugeriu um dia anual para as mulheres curtirem seu corpo, além de organizar uma listagem de propagandas que ofendem ou distorcem a condição feminina.
Para celebrar, vale tudo, das menores às maiores atitudes: dar um tempo na sua autocrítica com o espelho; agendar uma boa massagem e, depois, comer sua sobremesa favorita sem culpa; mandar um cartão virtual para espalhar a ideia – ; escrever no seu blog a respeito (veja a proposta do Duplamente Venusiana aqui)."
Fonte: http://colunistas.ig.com.br/delas/2009/10/21/e-hoje-celebre-seu-corpo-no-love-your-body-day/
Fotografía de la cantante argentina Mercedes Sosa perteneciente al disco "Mercedes Sosa", serie "Grandes Artístas" editado en Argentina en 1973.“Pasan los años,
y cómo cambia lo que yo siento;
lo que ayer era amor
se va volviendo otro sentimiento.
Porque años atrás
tomar tu mano, robarte un beso,
sin forzar un momento
formaban parte de una verdad.
Silvio Rodriguez “
Se morio La Negra, a América Latina fica sem voz. O som que dava pano de fundo aos nossos sonhos adolescentes se apagou. A música que embalava nossas bandeiras não canta mais. Hoje o dia amanheceu mais triste, neste pedaço esquecido de América, que se pensou esperança.
Existem coisas que nunca esquecemos, e a voz de Mercedes Sosa que ouvi no rádio a primeira vez, no programa América do Sol, do poeta e cantor Abílio Manoel, “Mi oficio de cantor es el oficio”, versos que entraram em minha alma como ferro em brasa, que arrancaram meus primeiros versos de uma alma seca. Fiz-me poeta na canção. Nem sabia o que era a vida, de tão jovem, mas sabia queria alguma coisa como aquilo, aquela força poderosa que se apoderava de mim cada vez que ouvia aquela voz. O calor que me subia a espinha e me fazia sentir vivo.
Aprendi a tocar toscamente violão, este que carregava como troféu pelas ruas, sob os olhares desconfiados da polícia, pois para os algozes, a arte era algo muito danoso aos jovens. Além de proletário e estudante, queria ser cantor, e do cantor nasceu o poeta. Bastava-me arrastar dedilhados andinos, canções de América, ouvir Tarancon, Raíces de América, me emocionar até as lágrimas, com “volver a los dezessiete”, cantada por La Negra junto com Milton Nascimento, e meus olhos foram ficando cada vez mais profundos, melancólicos, a me recordar como Amanda as canções de Victor Jara. Aprendi o comunismo de uma forma branda, “Hay que endurecer, pero sin perder la ternura”, acreditei por muito tempo na esperança, vivi no tempo que se gastou o medo, de tanto usado. Carregávamos nossas bandeiras vermelhas com fé e orgulho, nosso mundo tinha um destino. Nosso amor era coletivo. Mas sonhos morrem também, e embora demore um pouco, a esperança também se finda. E agora vivemos em uma existência onde foi roubado o amanhã. O que resta ao poeta é saber se findável, e ficar esperando a morte. Como diz o poeta José Carlos Brandão, “escrevo porque vou morrer”.
Hoje minha vitrola está quebrada, e sempre adio o seu conserto, meus discos mofam e se envelhecem. Às vezes por absoluto saudosismo procuro no Youtube algumas daquelas canções, e fico chorando sozinho, pois minha companheira ralha comigo quando escuto canções tristes. Meu amigo o poeta Marcelo Ariel disse que a nostalgia é uma forma de suicídio, corroborado por análises psicológicas, e coisa e tal. E penso que viver só do imediato sem a possibilidade de esperança, de um porvir, é tão morte como a morte, que é melhor desviver ouvindo canções tristes, do que ficar solto na corrente que nunca para. Não deveríamos sobreviver à própria morte.
Ontem, dia 05 de outubro morreu Mercedes Sosa, a mulher que tinha o nome de minha avó, que também já morreu. Nossas referências estão envelhecendo, e morrendo, e nós também ficamos irremediavelmente velhos, logo chegará a nossa vez. Vivemos a trajetória do herói trágico, a de vivermos mais que nossos sonhos. E não ficamos sábios. Um dia um amigo meu disse que a esperança venceu o medo, hoje nem mais o medo temos a nos motivar.
Sorte a poesia também viver de amargor.

Tempos atrás, alguns anos na verdade, escrevi um poema crônica sobre o destino dos livros que eram queimados ou destruídos em atos de barbárie e ou ignomínia. No meio poema, meio conto, os livros queimados em praça pública iriam integrar as bibliotecas do inferno, como o texto tende a ser enxuto, algumas formas de destruição vis de livros ficaram de fora, menos o hábito brasileiro de transformar livros em papel higiênico, por exemplo. Já que a cultura não nos entra na cabeça pelos olhos ou dedos, quem sabe por outro orifício.
No texto em questão nomeava como funcionário destas bibliotecas, determinadas pessoas: ...Os destruidores da Biblioteca de Alexandria, trazidos ali originalmente para cuidar dos volumes desta, catalogavam e cuidavam deste precioso acervo. Depois, bibliotecários sádicos, maus poetas e beletristas... Pois bem, descobri recentemente que fui injusto em não incluir novas duas categorias de pessoas para trabalharem na lida e cuida dos livros do acervo do tinhoso: diretoras e coordenadoras pedagógicas de escolas estaduais.
Chegou a mim uma informação de primeira mão, cujo a pessoa não posso, por razões éticas e óbvias, revelar o nome, que em uma escola estadual em minha cidade, a diretora e uma coordenadora pedagógica destruíram parte do acervo da biblioteca da escola, arrancando as capas para ocultar o crime e vendendo os livros como sucata. A desculpa, os livros estavam “feios” e maltratados, e uma nova leva seria enviada pelo governo para substituir os livros. Odeio usar este tipo de expressão, mas o dinheiro que sai de nossos bolsos em forma de impostos, compra os livros para as crianças, justíssimo, no entanto estes livros ficam trancados à sete chaves para não estragarem, como pessoalmente já vi livros que nunca haviam sido tocados em bibliotecas escolares, e se por acaso passarem raramente pela mão de uma criança, e tiverem um leve esfolado de uso, ou uma “orelha”, o destino é a destruição. A destruição de alguns exemplares pelo uso é natural, mesmo porque a criança não afeita ao uso desta mídia que é o livro, não saiba como manuseá-lo. Não foi o caso, as razões da destruição não foram por condições de uso, mas sim estéticas. E uma noção estética, perigosa, que muitas vezes passa pelo preconceito pessoal das pessoas que realizam estes “autos de fé”.
Em um momento em que por força da necessidade de letramento é importante que as crianças manuseiem os livros, e estes livros já meio rotos são os ideais, se o livro tiver de ser destruído, que o seja no processo de aprendizagem dos pequenos, e não pelo horrível senso de zelo de pessoas que deveriam estar pedagogicamente comprometidas, e não por desvelos burocráticos e exercício de pequeno poder. É tão difícil em um país de analfabetos funcionais começar a se incutir o gosto pela leitura, e sabemos que quanto mais cedo isto acontece, melhor e mais eficiente o efeito. O que me dói, é que uma das informações que me chegaram é que os livros escolhidos para virar sucata eram livros de poesia para crianças. Em um bairro carente de cultura em minha pobre cidade, o direito dos infantes foi vilipendiado.
Não é a toa que esta escola estadual teve notas muito ruins na avaliação feita pelo estado, não é estranho que muitas crianças estão chegando analfabetas no quinto ano. A poesia precisa de muito fôlego para sobreviver nestas condições. Se muitas destas pessoas mal saberão ler seus holerites e saber se estão sendo enganadas pelos patrões.
Não graças a estes funcionários zelosos e burocratas empedernidos.


Coletamos na praia tudo o que nos sobrou realmente.
Tudo é útil quando é pouco, tudo é necessário quando é único.