segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Última blogagem de 2009.


Hamlet y el fantasma de su padre. Henry Fuseli


Há um ano, mais ou menos, comecei este blogue com o intuito de escrever pelo menos de quinze em quinze dias. Não fui tão disciplinado assim, houve falhas várias, mas no geral foi uma experiência muito rica, os textos tomaram seu próprio rumo, escrevi sobre o que queria e sobre o que senti necessidade, nem sempre necessariamente o que me fosse agradável. Estamos renovando a promessa da abertura do blogue nesta última blogagem do ano, continuaremos escrevendo.


O amigo poeta Jorge de Barros recentemente propôs, no blogue Sapateiros de Palavras: "Qual o papel de um grupo literário em uma cidade de analfabetos funcionais"; uma discussão que pretendo aprofundar, mas só o ano que vem, pois vai dar muito pano para manga e receio que não haja uma única resposta, e não seja muito simples.


Em relação ao natal do ano passado posso dizer que estou muito melhor, pois estou conseguindo ficar em pé sem me apoiar em nada e olhar para a tela do computador sem sentir náuseas e correr para vomitar. No dia 25 de dezembro do ano passado, fui acometido de uma crise de labirintite muito forte, tirante as tontices normais da idade, estou ótimo.


2009 foi um ano estranho, como tem sido todos os anos de minha vida. mas em especial os últimos cinco, leonino com ascendente em aquário, tudo em minha existência tem girado em torno da contradição. Filho de Athena e Hera, a tudo tento racionalizar, quando todos sabemos que neste mundo nada faz sentido, por que não tem sentido. Lembro da frase do poeta Jorge de Barros muito emblemática, “quando nasci o mundo já não fazia sentido”. A minha casa é meu refúgio, mas mesmo nela me sinto um exilado, sinto como que se eu pessoalmente tivesse sido expulso do paraíso, e em nenhum lugar encontre descanso. A tudo tento aplicar justiça, quando vivemos em meio a injustiça, e verdadeira justiça é a que for para todos sem que ninguém fique de fora. Não sou um bom companheiro de luta, pois me cansei e desisti, não tenho o ânimo de lutar toda uma vida, nunca serei um imprescindível segundo Bertold Brecht, desisto com o mesmo entusiasmo que começo alguma empreitada. Estou mais para o estribilho da música da banda americana R.E.M.: “I's The End Of The World As We Know It {And I Feel Fine)” - (É O Fim do Mundo Como Nós O Conhecemos (E Eu Me Sinto Bem)}. Ou a frase lapidar de Belchior que encerrou a minha juventude, “Não sou feliz, mas não sou mudo, hoje canto muito mais”. Vou vivendo um dia de cada vez, por isso não consigo escrever um romance, pois precisaria de mais continuidade, por isso abandonei a música, que precisava de disciplina e dedicação exclusiva, por isso parei de pintar, pois não sabia mais o que fazer com os quadros, por isso escrevo poesia, que embora tome um grande tempo, e exija grande disciplina, está mais para a espontaneidade e a velocidade da síntese. Além do que o poema gruda na gente feito visgo, não existe querer para o poema, se não escrevê-lo, este o atormentará até à insanidade (se é que já não o seja).


E temos então a poesia, esta péssima companheira de viagem, mas que não consigo abandonar, e que receio me acompanhe até depois da morte. Esta forma episcopal de ficar psicografando memórias dos meus “eus” que já morreram, mas que insistem em continuar a me atormentar.

“tirinha” – DGABC 26/12/2009




É impressionante como uma inocente “tirinha” do Chico Bento publicada no jornal Diário do Grande ABC, caderno Cultura e Lazer, pode conter um ingrediente da exclusão social em nosso país. Trata-se do preconceito lingüístico, termo cunhado pelo professor Marcos Bagno, mas que se encaixa perfeitamente neste caso.  Na “tirinha”,  o Chico Bento mostra entusiasmo com seu novo animal de estimação,  um papagaio, ao amigo Zé da Roça, declarando as qualidades do bichinho de ser um bom falador, e de falar tudo “certinho”, ao que o Zé retruca em seco, que o Chico então poderia aprender a falar com o papagaio.

Parece uma piada besta, mas não é, estou cansado de ver pessoas com idade e experiência,  serem corrigidas em seu falar gostoso e brejeiro, por discípulos do Pasquale Cipro Neto, sendo desrespeitados como seres humanos integrais que são. Cada pessoa carrega sua bagagem de conhecimento, e nem sempre isto é acadêmico. É mais do que provado, por lingüistas sérios e teóricos da educação, que os “erros” de português na verdade são dialetos pessoais, todos plenamente explicáveis,  e ao menos que estejamos escrevendo um documento oficial, cada pessoa tem o direito de falar da forma que lhe for mais conveniente e confortável, em especial em seu ambiente de origem. A repetição do preconceito é anti-producente para todos.

Por fim, tenho que ressaltar o anacronismo destas “tirinhas”, muito antigas, que mostram a professora tirana e estereotipada, que não foi alcançada por conceitos básicos de pedagogia, piadas que carregam conteúdo preconceituoso  e excludente social. Com tantos bons cartunistas que existem na região, o Diário do Grande ABC poderia renovar esta parte do jornal, que tenho certeza que é muito lida por todos os leitores e de todas as idades.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

OUTRAS PALAVRAS - POÉTICAS DES-DO-BRA-DAS - 16/12/2009



OUTRAS PALAVRAS – POÉTICAS DESDOBRADAS,  uma noite dedicada a poesia e aos amigos, linguagens possíveis da poesia se conversando.





 
Leitura de poemas com o acompanhamento do Percutindo Mundos.




Música Livre - Percutindo Mundos. 




Lendo poemas na Casa da Palavra, a casa da poesia do Grande ABC.


"No descomeço era o verbo. / Só depois é que veio o delírio do verbo. / (...) Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer nascimentos / — O verbo tem que pegar delírio". Manoel de Barros.


CASA DA PALAVRA – ESCOLA LIVRE DE LITERATURA
PRAÇA DO CARMO, 171, CENTRO – SANTO ANDRÉ, SP
TELEFONE: 4992-7218

16/12/2009, às 19:00h


TELEFONE: (11) 4992-7218

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Romper as fronteiras que estão dentro de seus corações.




Se tem uma coisa que me irrita profundamente, são críticas anônimas, ou  situações que quando sou atacado sem chance de defesa. Coloco meu nome em tudo que faço e escrevo, nem sempre estou certo, mas seja lá de quem esteja falando, este sempre terá a chance de retrucar, até mesmo de me fazer mudar de idéia, por que não. O anonimato é coisa de gente mesquinha, perigosa, ressentida, covarde,  desleal e fascista. Mesmo esta delação de criminosos, anônima ou premiada,  me põe um certo receio, embora plenamente justificável em determinadas situações, mesmo assim tem um potencial de revanchismo e vingança barata, típicos de sociedades totalitárias e reacionárias, a “caça as bruxas” medieval e o nazismo se deram nestas bases, não gosto de meu vizinho, denuncio-o como bruxo ou judeu.  Já ouvi casos de delação por tráfico de drogas feitas por um vizinho que não gostava do ensaio de uma banda de rock, demorou para os meninos explicarem que ali era uma casa e não uma “boca”, ficaram marcados pela violência policial e pelo preconceito que existe em certos círculos contra pessoas jovens.  O delator, este sim um criminoso, se safou por trás da garantia do anonimato.


Por que estou a escrever isto, aconteceu em um outro blogue, espaço de um grupo da cidade onde moro, ao qual pertenço, a Taba de corumbê -  (http://tabadecorumbe.blogspot.com)  ter recebido uma crítica anônima, que por um espírito democrático e muito ingênuo de minha parte, não foi moderado. Acontece que o “espírito livre”, abusou da cortesia e se transformou em um “espírito de porco”. Fazendo acusações caluniosas e utilizando de um linguagem chula e recheada de trocadilhos que insinuavam ou se utilizavam de calões. Percebe-se até uma certa erudição em tal pessoa, ou um conhecimento livresco, o que torna mais inefável ainda seu ato.


Por que é que quando alguém tenta fazer algo pela Cultura de uma cidade, logo aparece um crítico detrator? Passam-se anos e décadas que nada acontece, tudo é um silêncio de deserto. Começam e terminam mandatos que sequer apelam minimamente para a Cultura. Quando um grupo de pessoas se reúne em prol de uma causa comum, o sucesso pífio que conseguem, provoca inveja e ressentimento naqueles que por inércia, ficaram acomodados. Um atoleiro de injúrias difamatórias pode ser esperado.


Das coisas ditas nos comentários do blogue, que não apaguei e espero o cavalheirismo de uma assinatura, as que mais me deixaram triste foram três: “puxação de saco”, discursos laudatórios e politicagem ufanista.


Bem lhes digo, me chame por um palavrão, mas não me use a expressão “puxa saco”, dirigida à minha pessoa, para meus próximos detratores aqui vai uma grande dica, “puxa saco” e vagabundo são as piores ofensas que me podem ser feitas. Cresci em um ambiente de fábrica, meu pai é ainda peão, comecei a trabalhar em uma linha de produção quando não tinha barba ainda. Não se chama um trabalhador honesto de puxa saco, nem de brincadeira, quem gosta desta acunha são os “traíras”, os traidores que trabalhavam junto a nós, mas eram agentes do patrão. Faz muito tempo que não piso o chão de uma fábrica, o que me dá muitas saudades, mas a moral que se aprende ali, é para toda uma vida. Fui filiado ao sindicado antes de tirar o título de eleitor, que naquela época não valia nada mesmo.


Tenho negociado espaços para que o grupo se reúna, e isto infelizmente se tem que fazer com o poder público, ainda não tomamos o que é nosso por direito, então a democracia pede uma mediação. Isto não me torna um “puxa saco”, mas sim uma pessoa de estomago forte,  mas enquanto os “puros” se mantém à distancia, faço o meu papel. Considero o espaço público como espaço de todos, não vou me limitar à periferia, às favelas, às ocupações, odeio uma frase que ouvi na “Ópera da Terra Pilar”, uma peça de teatro realizada em minha cidade, “ a periferia é o nosso lugar”, o “escambáu”, todo o lugar é nosso lugar, que não venham nos limitar a guetos, pior não devemos nós, nos limitar a guetos. Quando falo que a Câmara Municipal é um espaço do “povo”, expressão tão amada da neo-esquerda, eu prefiro “pessoas”, como determina o Teixeira Coelho, é porque todo espaço público é de todas as pessoas, gostem ou não nossos edis e seus assessores, ou os “intelectualóides” que se proclamam livres das amarras governamentais, mas que se digladiam por qualquer vintém de verba pública para manter seus projetos nas periferias. Impedindo que crianças e adultos, pessoas livres, brasileiros de direito, se apropriem de todos os espaços públicos da cidade, Câmara, prefeitura, posto de saúde, escolas, anfiteatro, teatro, o átrio da igreja, calçadas, praças, ruas e qualquer área de circulação livre, todos estes espaço podem ser e devem ser usados na fruição da arte. O barracão na favela é um ótimo espaço, só não deve se limitar a isto, os alunos destes espaços devem ser preparados para ir além da fronteira da “Conúrbia”, devem ser preparados para romper as fronteiras que estão dentro de seus corações.


O que posso escrever sobre os “discursos laudatórios”, de fato existem pessoas no grupo com este péssimo hábito, mas em um universo de muitos, posso destacar duas pessoas, que têm em sua defesa o fato de serem pessoas de idade, com hábitos arraigados de elogiar as autoridades presentes, coisa de povos que passaram pela Santa Inquisição e que tem medo de desagradar às pessoas. Não se pode confundir uma espécie de educação cortês e burguesa, que todo o brasileiro tem,  mormente os mais velhos, com subserviência. Mais ainda, não confundir o hábito de uma pessoa, com o comportamento e a ação do grupo. É comum em toda a cerimônia, e determinados momentos, apresentar ao grupo as pessoas com alguma deferência.  Não tenho esta prática, mesmo porque sou filho da geração contestadora dos anos sessenta, que queria derrubar as prateleiras e proibir o proibir. Tenho uma dificuldade monstruosa de lidar com a autoridade. No entanto tenho percebido também, que atitude não pode ser falta de educação.


A expressão, “politicagem ufanista”, talvez seja a mais complicada, e demonstra todo o preconceito de classe por parte do comentarista anônimo, o grupo “Taba de Corumbê”, surgiu em uma oficina literária chamada “Oficina Aberta da Palavra”, idealizada pelo poeta Guilherme Vidotto Filho, inspirada em uma conversa com o escritor e dramaturgo Luís Alberto de Abreu; Vidotto escrevia poemas inspirados na história da cidade de Mauá, quando Abreu o conclamou a criar uma oficina onde se reuniria autores da cidade para escrever sobre ela. A oficina aconteceu em um momento sensível da história da cidade, onde tentava-se a todo custo recuperar-se a auto estima de seus moradores. Nasceu com a prerrogativa quixotesca sim, não ufanista, de encontrar a “alma” das pessoas, em um “inventário poético de Mauá”, é certo que como todo o plano utópico não passou de pretensão, no entanto extrapolou o conforto do espaço público e gerou um grupo de cidadãos interessados em cultura, são na maioria poetas, mas tem de tudo um pouco: de donas de casa, professores, artistas plásticos, entre outros, pessoas se agregam, pessoas vão embora, que é muito natural. Não escondo o fato para ninguém de que sou partidário, sou filiado ao Partido dos Trabalhadores desde sua fundação, apesar que algumas decepções de ordens diversas, continuo filiado, embora afastado das ações políticas à algum tempo. Isto é meu direito constitucional, todo cidadão brasileiro pode se filiar a um partido político, já fui jurado no tribunal, me alistei no Exército, trabalhei vários anos de graça para a Justiça Eleitoral, estou quites com a vida republicana. Ocupei também de 1997 a 2004 vários cargos comissionados, vindo a trabalhar na Secretaria Municipal de Cultura pela minha militância na área,  e não pelo contrário. Somente uma pessoa com dificuldade de discernimento mental, e ai me perdoem os doidos, para criar uma relação ao fato de eu ser um dos sete mil filiados ao PT em Mauá, e meu trabalho na literatura. Se gostar da cidade em que mora, das suas pessoas, e querer o melhor para ela é ser ufanista, o sou. Ao me acusar de politicagem,  pela minha condição de filiado a um partido político e apenas isso no momento, é preconceito. Decerto que Ginsberg, fala em “América” seu poema visceral, que “o poeta que se envolver em política, se tornará um mostro”, estou disposto a correr este risco como muitos outros antes de mim, ou como meu muito amado José Marti, que deixou de ser um grande poeta cubano para se tornar um herói nacional e dos povos latino-americanos, ou como Neruda, que carrega a crítica de ser um poeta menor por seu engajamento, mesmo com toda a sua popularidade.


Para arrematar sobre a afirmação: “em Mauá, há gente pensando em cultura e arte além de vocês”, posso dizer que fico muito feliz, quanto mais gente fazendo arte melhor, se tem gente fazendo melhor que a Taba, melhor ainda. Onde em que momento se afirmou o contrário? Não somos “chapa branca”, escrevemos poesia porque é o melhor que sabemos fazer, os grandes homens fazem grande coisas, aos poetas as pedras. Assim como Cassandra, veremos Tróia arder em nossos sonhos e ninguém nos acreditará. Este é nosso glorioso destino.


Quanto as acusações escritas em inglês colegial, de que somos provincianos, medievais, e vivemos na barra da “Família Real”, respondo que sou provinciano com o maior orgulho, como diziam Câmara Cascudo e Gilberto Freire,  temos o maior orgulho desta terra desolada pelo “milagre brasileiro”,  das pessoas migrantes e de sotaque carregado, faço poemas para minha cidade e para estas pessoas também, não tenho o menor constrangimento de dizer, sou de Mauá, em qualquer círculo que estiver. Minha província se chama mundo, e minha casa é onde eu puder morar.  Quanto ao medieval, não sei o que escrever, pois não entendi sua magnitude, talvez pelo hábito dos reis de abrigar artistas mambembes:  não, não sou um artista da corte, sou um bardo de estrada, cantor maltrapilho por um pão e um sorriso. Quanto ao viver às custas da família real, devo entender que é pelo fato que em alguns momentos termos nossas obras subsidiadas pelo FAC – Fundo de Assistência à Cultura de Mauá, que graça aos deuses perdeu este nome horroroso, com algumas migalhas que de vez em quando são jogadas aos pombos da arte. Sei de grupos dependurados na favela que vivem com dinheiro público federal, e não existe mal nenhum nisso.  Fosse eu amigo da família real não estaria desempregado a tanto tempo. Minha incapacidade de fazer coisas que minha ética não permite me deixou em maus lençóis muitas vezes, tanto quantos me amam, outros odeiam, e isso são coisas da vida. Fala da Taba ser desagregadora, mas isso me recuso a comentar tamanho o absurdo.


E quanta à esta conversinha de que o novo vem para substituir o velho, não esqueça que todos um dia envelhecem.



Menos a poesia claro, a poesia é sempre jovem e tem todas as idades do mundo.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Uma insondável proposta de intolerância e violência

Está circulando pela Internet uma apresentação PPS (Onde deus estava no 11 de setembro?) meio assustadora e profundamente etnocentrista, onde Anne Graham, filha do reverendo Billy Graham, diz que o 11 de setembro americano aconteceu, entre outras coisas, porque deus foi expulso das escolas americanas e os pais não surram mais os seus filhos, e como o bom e velho Jeová é vingativo, permitiu que fanáticos religiosos destruíssem os prédios de Nova Yorque (afinal, a Al Quaeda não está a serviço de deus?). Não há menção aos outros onze de setembro, como a explosão do Krakatoa que matou mais de trinta mil pessoas oficialmente, já que nunca foram contados os nativos mortos que podem ter chegado a cem mil, ou o onze de setembro chileno, que gerou uma ditadura cruel fomentada pelos americanos do norte, e que matou também algo em torno de trinta mil. Imagino que como um matou asiáticos incréus e o outro latino-americanos comunistas, deus não fez conta destas mortes. O texto é bem escrito, e aparentemente bem intencionado, mas carrega algumas mentiras grossas, por exemplo o filho do Dr. Spock, Benjamim (não é o vulcano de Star Trek) não se suicidou, seu neto esquizofrênico, saltou de um prédio. Muitas vezes estes textos religiosos incitam uma coisa que para mim está fora de cogitação, usar as escolas laicas para difusão da religião, religiões monoteístas, que seja bem, claro. Isto no fundo no fundo, traz uma insondável proposta de intolerância e violência.


Sou de um tempo em que éramos disciplinados o tempo todo, sofri todo o tipo de violência física e psicológica, tanto em casa como na escola, demorei muito tempo para me reconciliar com meus pais, sempre vejo a escola como um lugar opressor, como Pierre Bourdieu. Deixei de ir à igreja assim que tive autonomia, com meu próprio dinheiro no bolso pude ser dono de mim mesmo. Sou totalmente não religioso, a religião não faz parte de minha vida ou rotina, só entro em igrejas em casamentos e batizados, pois sou muito social com os amigos e gosto de comemorações, em outros momentos evito até passar na porta. Por outro lado, sou estudante tardio de pedagogia, entender a educação oficial, talvez me ajude. Sempre gostei de estudar, sempre odiei a escola.




Criei minha única filha com total liberdade, nunca a disciplinei de forma severa, mas lhe transmiti valores éticos. O assunto religião em minha casa nunca foi tabu, minha sogra uma pessoa religiosa e de uma fé inabalável, tinha toda a liberdade de passar seus conhecimentos para a neta. Existiam coisas que se podiam e coisas que não. O limite para a liberdade é a auto-preservação e os direitos humanos próprios e dos outros, portanto quando educamos crianças existem coisas que são negociáveis, como qual a roupa que quer usar ou comida que quer comer, e outras que não se discutem, crianças no banco de trás do carro, no cadeirão; não vou dar minha arma carregada para brincar com os amiguinhos. Engraçado que minha filha é uma pessoa bastante religiosa, pois escolheu seus próprios caminhos. Eu por minha vez, morrerei agnóstico, pois tive meu momento de me reconciliar com a religião, dizem que quando enfrentamos a morte cara a cara nos é revelado a nossa verdadeira convicção, pois bem, passei por este momento e não senti qualquer apelo ou força sobrenatural.


Tenho amigos cristãos, e mais que isso, minha companheira é uma cristã convicta, são pessoas tão certas de sua fé, que conseguem conviver com as diferenças sem se sentirem ameaçados. A própria palavra tolerância é complicada, pois implica em tolerar a existência do outro, temos que pensar em coabitação e alteridade. Pessoas éticas e com valores humanos, farão as coisas certas, não importa sua fé. Em especial as pessoas que exercitam a compaixão e são sensíveis a dor, a perda do outro.




Gostaria que houvesse um ponto de equilíbrio entre a tortura que sofri em minha infância, onde deus era um monstro cruel e perseguidor, e esta total ausência de valores que vemos na garotada de agora. Um mundo estranho em que vivemos, pois conhecidos meus que levaram os filhos na igreja tiveram problemas de drogas com os filhos, e minha filha se formou na faculdade antes da maioridade. A verdadeira liberdade, a que implica em ser responsável por si mesmo, quase sempre resulta em pessoas que são auto-reguláveis. Quando as pessoas são deixadas a própria sorte, e isto não é liberdade, é abandono, gera as mais inefáveis conseqüências. “Mas os pais deram de tudo para aquela criança e ela se tornou um bandido”, deram tudo menos atenção e carinho, existem estudos que comprovam que crianças negligenciadas pelos pais desenvolvem problemas psicológicos, o que o senso comum chama de defeito de caráter. Não sei porque, mas pais muito preocupados com a religião cuidam muito mal de seus filhos.


O que mais me orgulho de ter passado para adiante foi a sensibilidade para a arte. Sempre levei minha filha, sobrinhos e agregados, a museus, exposições de arte, cinema, caminhadas por parques, sempre tivemos intermináveis conversas, e apresentei-lhes os livros muito cedo, antes mesmo da alfabetização. Confesso meu crime, também lhes apresentei a poesia, mas isso desconfio que eles teriam descoberto sozinhos.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

OUTRAS PALAVRAS - POÉTICAS DES-DO-BRA-DAS, Santo André, SP · 16/12

Diálogo entre as diversas realidades poéticas. Palavras & trocas artísticas, leituras, performance, intervenção musical, poesia, dança, diálogo afro-caiçara-suburbano. Diálogo multi-linguagem a abordar e desdobrar o corpo, a cidade, os outros corpos, e as outras cidades.


Convidados: Edson Bueno de Camargo, Henrique Krispim, José Geraldo Neres, Jorge de Barros, Kiusam de Oliveira, Pierina Ballarini (Projeto AURORA), grupo Percutindo Mundos, Rádi Oliveira, e Rodrigo Basan.

CASA DA PALAVRA – ESCOLA LIVRE DE LITERATURA
PRAÇA DO CARMO, 171, CENTRO – SANTO ANDRÉ, SP
TELEFONE: 4992-7218

16/12/2009, às 19:00h


TELEFONE: (11) 4992-7218

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Blogagem Coletiva “Abre Aspas Terceira Edição”


No dia 09 de novembro (uma segunda-feira – é claro) “abra aspas” no seu blog, escolhendo um poeta e uma poesia para deixar mais poética a blogosfera…


DE "OS MISTÉRIOS DO OFÍCIO"

de Anna Akhmátova


"De que servem exércitos de canções
e o encanto das elegias sentimentais?
Para mim, na poesia, tudo tem de ser desmesurado,
e não do jeito como todo mundo faz.
Se vocês soubessem de que lixeira
saem, desavergonhados, os versos,
como dente-de-leão que brota ao pé da cerca,
como a bardana ou o cogumelo.
Um grito que vem do coração, o cheiro fresco de alcatrão,
o bolor oculto na parede...
E, de repente, a poesia soa, calorosa, terna,
Para a minha e tua alegria."

Ana Akhmátova, pseudónimo de Ana Andreievna Gorenki nasceu nos arredores de Odessa em 1889 e faleceu nos arredores de Moscovo em 1966.

Sobre a lamentável atitude da UNIBAN em relação à aluna Geyse.


http://apoiadores.wordpress.com/

http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2009/11/07/uniban+expulsa+aluna+hostilizada+por+usar+vestido+curto+9042025.html


Qual o decoro estabelecido para uso de roupas? Ponderemos: em países islâmicos, de rígidos costumes morais e pouco respeito às mulheres, a roupa ideal é a burca, e suas variações, que começam por cobrir sempre a cabeça, ou o corpo todo. Cada povo tem seu costume, e não serei eu que dirá o que é certo ou errado. Mas os que estes países tem em comum é o fato de serem muito pouco democráticos e onde o estado de direito é muito pouco respeitado. Alguns grupos acreditam-se no direito de intervir na vida de todas as pessoas, países como a Arábia Saudita sequer tem uma constituição e é uma monarquia absolutista e medieval, das que desapareceram do mundo ocidental após a Revolução Francesa.


Costumes com vestimentas mudam com o tempo, antes de 1800, uma mulher decente jamais usaria uma calcinha, coisa de mulher mundana, botões nem pensar, as roupas eram quase que costuradas sobre o corpo. Nunca lembro de visto os cabelos de minha avó soltos, sempre cobertos por um lenço. No Brasil até os anos 50 e mesmo depois disso, uma mulher de calças poderia ser presa, e com certeza seria hostilizada na rua. E é ai que quero chegar.


Acredito ser o Brasil um país constitucional, onde bem ou mal, funciona o império da Lei (ou deveria), há sempre o que se melhorar, mas se compararmos a linha do tempo, veremos que já foi pior, e bem pior. Existe na Constituição o claro direito de ir e vir, e o de nos portarmos conforme nos for conveniente e confortável. Graças a todos os deuses, não temos leis de costumes, que nos indicam o que vestir, o que comer, aonde ir. O que aconteceu na UNIBAN, vai além do lamentável, cai em um terreno muito perigoso, pois por um lado a universidade condena a vítima e valoriza o ato criminoso( preparem-se, a próxima vítima dos TaleBans furiosos pode ser sua filha). E por outro perpetra o ato nefando da violência contra a mulher, nossos jovens lamentavelmente estão eivados de um veneno que se chama machismo, onde um homem tem mais valor que uma mulher, algo que fere a Lei e o bom senso ao mesmo tempo, um câncer que já deveria ter sido extirpado a muito tempo do seio de nossa sociedade, mas como o nazismo e o preconceito, seus subprodutos tóxicos, parece que renasce todo dia como a cabeça de uma hidra de Lerna.


Lembremo-nos, quando uma mulher é agredida, todas as mulheres o são.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Considerações atrasadas sobre a blogagem coletiva no “Love Your Body Day”.



Lembro do dia em que definitivamente percebi que nunca seria cristão, quando me conscientizei que a máxima, "ama ao próximo como a ti mesmo" era a espinha dorsal do cristianismo e descobri que não me amava. Ao contrário me odiava de morte. Passei a puberdade me odiando e querendo morrer a cada esquina, a cada espinha, a cada quilo que engordava inexoravelmente, a cada fantasia de rejeição, ao fato de ser feio e desajeitado (como se todo adolescente não fosse), ao de ser um fracassado no esporte, às complicações inerentes da idade e que ninguém nos contava que era natural. Odiava o fato de enxergar mal e cada dia ver menos. Odiava ter a compreensão do mundo dilatada, embora equivocada, e de ser mais inteligente que os outros, e sentir uma fome inesgotável de conhecimentos. Odiava aquele deus mal e cruel que em tudo colocava o dedo e sempre dava as piores soluções. Odiava minha sensibilidade e tinha um medo terrível de que isso significasse uma menor virilidade. Escrevia poemas escondido, às escuras, às avessas. Lia com uma devoção religiosa, mas passava por idiota para não ser notado em minha intelectualidade. Não sinto a menor saudade de minha juventude, eu era infeliz e sabia.


Mas se não nos amamos, como amar o outro? Como ver o outro como bom, se assim não nos vemos? Não é possível a compaixão sem amor.


O tempo é o único senhor do mundo, e diante dele tudo se dilui, os ódios arrefecem, as iras se aplacam, o medo cansa. Aí nos entregamos à vida como ela é, simplesmente ser, sem sentido algum. Algumas pessoas mergulham no abismo, e cessam, outras o escondem sob o manto da fé, pois sabemos que contemplá-lo é muito doloroso. A outros cresce dia a dia uma indiferença, que se não é a morte, é como se fosse. Hoje ainda não me amo, mas isto não importa mais. Felicidade é um momento e um estado de espírito artificial, a tristeza nos torna mais alertas e conscientes de nossa vulnerabilidade.


O conceito de beleza da sociedade ocidental, se baseia na punção de morte. Eros cede cada vez mais espaço a Tânatos. Dentro do princípio que não há mais passado, porque se busca o novo o tempo todo, e é negado o futuro, porque o que importa é só o hoje. A partir deste pensamento que se pode moldar e traçar metas irreais de corpo, como se pudéssemos colocar as pessoas em formas e torná-las uniformes. E mesmo que isto fosse exeqüível, não é esse o objetivo final. A meta final da sociedade de consumo é que todos sejam infelizes, e incomodados com isso, e que preencham sua necessidade de felicidade eterna com produtos de consumo. Ser feliz é ter o carro tal, com itens, que, provavelmente, passada a euforia original da novidade, nem sejam utilizados. Ser feliz é imprescindível, pague-se o preço que se pagar por isso.


Lojas da moda, mesmo as mais populares, trabalham com o conceito das pessoas comprarem roupas para usarem pouco e descartarem. Tudo passa a ser item de consumo, mesmo coisas básicas como o vestir. Pessoas de meia idade com o peso acima da média, e que compram roupas para vestir e não ostentar, como meu exemplo, dificilmente encontrarão o que lhes caiba nestes lugares, os tamanhos diminuíram e não foi só eu que aumentei. Tive o disparate de comparar uma roupa extra-grande com uma G, e não GG, que tinha das minhas camisetas velhas e a G antiga era maior.


Existe na mídia toda uma pseudociência, anunciando os malefícios da obesidade, médicos da moda, que são notadamente embusteiros a procura de notoriedade e dinheiro principalmente, colocando inverdades como verdades absolutas e omitindo estudos que comprovam que as pessoas adoecem, não importa sua massa corporal. Há gordos e magros, com câncer, diabetes e problemas de coração no mundo. Não posso negar que a obesidade em certo grau é um complicador para a saúde, mas temos que tomar cuidado com as mitificações, doenças genéticas ligadas a marcadores nos cromossomos estão sendo equivocadamente relacionadas com a obesidade. No passado ser gordo era bom perante a medicina, hoje é mal, nos dois casos há um erro de conceito, um bom médico é o que avalia paciente por paciente, não por baciada. O gordo é o novo leproso que deve ser banido da sociedade.


As pessoas e nós morremos porque somos factíveis, é a única certeza que existe, a mídia usa isso o tempo todo, mas de forma distorcida, “aproveite enquanto se é jovem”, “ viva a vida, e tome Coca-cola”. No entanto o outro lado da moeda fica meio obscuro, crianças fazendo cirurgias plásticas, escravas de uma indústria da moda cada mais selvagem em seus hábitos, cada vez mais pedófila e deformada em sua sexualidade. Há um mundos de tarados e desviados sexuais dominando a mídia, e tudo parece bonito aos olhos de todos se veiculado a exaustão.


Na educação escolar nos deparamos com uma situação de intolerância extrema, o estranho, o diferente, o disfuncional é tratado com crueldade, violência e estranheza. Como se não enxergássemos nossas diferenças ao nos olharmos com o devido cuidado, e o que nos torna mais humanos é isso, a possibilidade da multiplicidade. O despeito e a inveja são os sentimentos que substituem, a compreensão e a solidariedade. E tudo isso permite, que nossos opressores, que são invisíveis o tempo todo e desconfio que sejamos nós mesmos (pois afinal quem sustenta a televisão e tudo mais, não somos nós mesmos?), operem como toda a liberdade. Há uma caça às bruxas aos políticos maus e corruptos, como se estes fossem uma classe a parte da população em geral, como se não fornecêssemos os nossos próprios filhos para este extrato social, como se a classe média infeliz e desejosa de compensações, não sustentasse o tráfico de drogas comprando-as.


Há um novo mito que surge, a do jovem invulnerável, imortal e imoral, eternamente jovem e belo, um narciso corrompido pela húbris, com suas motos possantes vazam faróis vermelhos, com seus carros incrementados estacionam nas vagas dos deficientes, usam esteróides para adquirir massa muscular, passam horas em frente a espelhos e nos vendem esta imagem como o protótipo do perfeito. E todo um exército de seguidores fiéis, que não tem os carrões nem as motos, mas tentam imitá-los na medida do possível. Em resumo é a idealização da imbecilidade. Por outro lado as mocinhas passam fome, usam roupas desconfortáveis, e se resumem cada vez mais em uma vagina onde os “bombados” depositam suas frustrações. Em relações sexuais cada vez mais focalizadas no órgãos sexuais, a nova opressão é mostrar o sexo em tudo até que se enjoe do corpo, o corpo é para mostrar não para se desfrutar; é o totalitarismo do falo. Mesmo as mulheres passam a ter um comportamento fálico, andrógino e violento.


Ai da poesia que é uma ferida de Narciso, mas daquele que se contemplava nas águas plácidas do lago, o espelho hoje é o outro, de quem importa-se só a admiração. As pessoas precisam parecer belos e não se sentirem belos.


Quando um bando de doidas que vivem no umbigo do mundo fazem uma campanha para que as mulheres se aceitem como são, independente do bombardeio diário da mídia em suas vidas, cresce uma centelha de esperança. Sou pessimista por natureza, mas creio que o mundo se move por pequenas iniciativas isoladas que se somam. É na mulher real que o mundo se sustenta, são elas que educam as crianças, cuidam dos doentes, enterram seus mortos, administram a casa na guerra cotidiana e na paz provisória em que vivemos, cada vez mais são quem provém o sustento e o abrigo dos seus. Quase sempre iniciativas de economia solidária e sustentável, ações de reciclagem de materiais e reuso da água, são ações de mulheres. Em muitos casos são a reserva ética da humanidade, e as mais capazes daquilo que nos torna mais humanos: o exercício da compaixão. Se estas mulheres além de tudo isso, aprenderem a se amar também, tomarão conta do universo.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Vamos celebrar a beleza do corpo feminino em todas a sua variação e diversidade.



"Com a proposta de celebrar a beleza do corpo feminino em todas a sua variação e diversidade, o “Love Your Body Day” chega hoje à sua 12a edição.

O movimento foi criado pela norte-americana NOW – National Organization for Women (Organização Nacional das Mulheres). Em 1998, alarmada pelo índice cada vez maior de mulheres que desenvolvem problemas alimentares — sem contar a sensação psicológica de exclusão dos padrões –, a instituição sugeriu um dia anual para as mulheres curtirem seu corpo, além de organizar uma listagem de propagandas que ofendem ou distorcem a condição feminina.

Para celebrar, vale tudo, das menores às maiores atitudes: dar um tempo na sua autocrítica com o espelho; agendar uma boa massagem e, depois, comer sua sobremesa favorita sem culpa; mandar um cartão virtual para espalhar a ideia – ; escrever no seu blog a respeito (veja a proposta do Duplamente Venusiana aqui)."

Fonte: http://colunistas.ig.com.br/delas/2009/10/21/e-hoje-celebre-seu-corpo-no-love-your-body-day/





Dia de Amar Seu Corpo

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Se morio La Negra.

Fotografía de la cantante argentina Mercedes Sosa perteneciente al disco "Mercedes Sosa", serie "Grandes Artístas" editado en Argentina en 1973.


“Pasan los años,
y cómo cambia lo que yo siento;
lo que ayer era amor
se va volviendo otro sentimiento.
Porque años atrás
tomar tu mano, robarte un beso,
sin forzar un momento
formaban parte de una verdad.

Silvio Rodriguez “



Se morio La Negra, a América Latina fica sem voz. O som que dava pano de fundo aos nossos sonhos adolescentes se apagou. A música que embalava nossas bandeiras não canta mais. Hoje o dia amanheceu mais triste, neste pedaço esquecido de América, que se pensou esperança.


Existem coisas que nunca esquecemos, e a voz de Mercedes Sosa que ouvi no rádio a primeira vez, no programa América do Sol, do poeta e cantor Abílio Manoel, “Mi oficio de cantor es el oficio”, versos que entraram em minha alma como ferro em brasa, que arrancaram meus primeiros versos de uma alma seca. Fiz-me poeta na canção. Nem sabia o que era a vida, de tão jovem, mas sabia queria alguma coisa como aquilo, aquela força poderosa que se apoderava de mim cada vez que ouvia aquela voz. O calor que me subia a espinha e me fazia sentir vivo.


Aprendi a tocar toscamente violão, este que carregava como troféu pelas ruas, sob os olhares desconfiados da polícia, pois para os algozes, a arte era algo muito danoso aos jovens. Além de proletário e estudante, queria ser cantor, e do cantor nasceu o poeta. Bastava-me arrastar dedilhados andinos, canções de América, ouvir Tarancon, Raíces de América, me emocionar até as lágrimas, com “volver a los dezessiete”, cantada por La Negra junto com Milton Nascimento, e meus olhos foram ficando cada vez mais profundos, melancólicos, a me recordar como Amanda as canções de Victor Jara. Aprendi o comunismo de uma forma branda, “Hay que endurecer, pero sin perder la ternura”, acreditei por muito tempo na esperança, vivi no tempo que se gastou o medo, de tanto usado. Carregávamos nossas bandeiras vermelhas com fé e orgulho, nosso mundo tinha um destino. Nosso amor era coletivo. Mas sonhos morrem também, e embora demore um pouco, a esperança também se finda. E agora vivemos em uma existência onde foi roubado o amanhã. O que resta ao poeta é saber se findável, e ficar esperando a morte. Como diz o poeta José Carlos Brandão, “escrevo porque vou morrer”.


Hoje minha vitrola está quebrada, e sempre adio o seu conserto, meus discos mofam e se envelhecem. Às vezes por absoluto saudosismo procuro no Youtube algumas daquelas canções, e fico chorando sozinho, pois minha companheira ralha comigo quando escuto canções tristes. Meu amigo o poeta Marcelo Ariel disse que a nostalgia é uma forma de suicídio, corroborado por análises psicológicas, e coisa e tal. E penso que viver só do imediato sem a possibilidade de esperança, de um porvir, é tão morte como a morte, que é melhor desviver ouvindo canções tristes, do que ficar solto na corrente que nunca para. Não deveríamos sobreviver à própria morte.


Ontem, dia 05 de outubro morreu Mercedes Sosa, a mulher que tinha o nome de minha avó, que também já morreu. Nossas referências estão envelhecendo, e morrendo, e nós também ficamos irremediavelmente velhos, logo chegará a nossa vez. Vivemos a trajetória do herói trágico, a de vivermos mais que nossos sonhos. E não ficamos sábios. Um dia um amigo meu disse que a esperança venceu o medo, hoje nem mais o medo temos a nos motivar.



Sorte a poesia também viver de amargor.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Bibliotecas do Inferno II


No dia 10 de maio de 1933, foram queimadas em praça pública, em várias cidades da Alemanha, as obras de escritores alemães inconvenientes ao regime.



Tempos atrás, alguns anos na verdade, escrevi um poema crônica sobre o destino dos livros que eram queimados ou destruídos em atos de barbárie e ou ignomínia. No meio poema, meio conto, os livros queimados em praça pública iriam integrar as bibliotecas do inferno, como o texto tende a ser enxuto, algumas formas de destruição vis de livros ficaram de fora, menos o hábito brasileiro de transformar livros em papel higiênico, por exemplo. Já que a cultura não nos entra na cabeça pelos olhos ou dedos, quem sabe por outro orifício.


No texto em questão nomeava como funcionário destas bibliotecas, determinadas pessoas: ...Os destruidores da Biblioteca de Alexandria, trazidos ali originalmente para cuidar dos volumes desta, catalogavam e cuidavam deste precioso acervo. Depois, bibliotecários sádicos, maus poetas e beletristas... Pois bem, descobri recentemente que fui injusto em não incluir novas duas categorias de pessoas para trabalharem na lida e cuida dos livros do acervo do tinhoso: diretoras e coordenadoras pedagógicas de escolas estaduais.


Chegou a mim uma informação de primeira mão, cujo a pessoa não posso, por razões éticas e óbvias, revelar o nome, que em uma escola estadual em minha cidade, a diretora e uma coordenadora pedagógica destruíram parte do acervo da biblioteca da escola, arrancando as capas para ocultar o crime e vendendo os livros como sucata. A desculpa, os livros estavam “feios” e maltratados, e uma nova leva seria enviada pelo governo para substituir os livros. Odeio usar este tipo de expressão, mas o dinheiro que sai de nossos bolsos em forma de impostos, compra os livros para as crianças, justíssimo, no entanto estes livros ficam trancados à sete chaves para não estragarem, como pessoalmente já vi livros que nunca haviam sido tocados em bibliotecas escolares, e se por acaso passarem raramente pela mão de uma criança, e tiverem um leve esfolado de uso, ou uma “orelha”, o destino é a destruição. A destruição de alguns exemplares pelo uso é natural, mesmo porque a criança não afeita ao uso desta mídia que é o livro, não saiba como manuseá-lo. Não foi o caso, as razões da destruição não foram por condições de uso, mas sim estéticas. E uma noção estética, perigosa, que muitas vezes passa pelo preconceito pessoal das pessoas que realizam estes “autos de fé”.


Em um momento em que por força da necessidade de letramento é importante que as crianças manuseiem os livros, e estes livros já meio rotos são os ideais, se o livro tiver de ser destruído, que o seja no processo de aprendizagem dos pequenos, e não pelo horrível senso de zelo de pessoas que deveriam estar pedagogicamente comprometidas, e não por desvelos burocráticos e exercício de pequeno poder. É tão difícil em um país de analfabetos funcionais começar a se incutir o gosto pela leitura, e sabemos que quanto mais cedo isto acontece, melhor e mais eficiente o efeito. O que me dói, é que uma das informações que me chegaram é que os livros escolhidos para virar sucata eram livros de poesia para crianças. Em um bairro carente de cultura em minha pobre cidade, o direito dos infantes foi vilipendiado.


Não é a toa que esta escola estadual teve notas muito ruins na avaliação feita pelo estado, não é estranho que muitas crianças estão chegando analfabetas no quinto ano. A poesia precisa de muito fôlego para sobreviver nestas condições. Se muitas destas pessoas mal saberão ler seus holerites e saber se estão sendo enganadas pelos patrões.


Não graças a estes funcionários zelosos e burocratas empedernidos.



Mas a poesia ainda vive.

bibliotecas do inferno




de Edson Bueno de Camargo

Sempre imaginei que livros queimados em praça pública em manifestações nazistas, livros queimados em fogueiras de autos de fé, livros triturados e amalgamados em novo papel higiênico, se transportavam para as bibliotecas do inferno. Os destruidores da Biblioteca de Alexandria, trazidos ali originalmente para cuidar dos volumes desta, catalogavam e cuidavam deste precioso acervo. Depois, bibliotecários sádicos, maus poetas e beletristas, passaram a cumprir ali seu castigo eterno. Mais tarde ainda censores papais e de insipientes ditaduras completaram os cargos remanescentes.

Demônios são criaturas que tem o saber como uma de sua fomes,
a ignorância dos homens aguça mais os seus apetites.

ratos devoravam pergaminhos
como queima agora
o azeite desta lâmpada...

domingo, 6 de setembro de 2009

Sobre o editorial do jornal Diário do Grande ABC de sexta-feira 04 de setembro de 2009

















Concordo com o editorial do Diário da Grande ABC que as administrações municipais estão deformadas em sua ideologia por conta da maneira com que tratam a Cultura em nossas cidades. Mas gostaria de esclarecer, que a Cultura de Mauá não se resume à Banda Lira, que tem grande importância, mas não é a única manifestação cultural em risco.

A própria Secretaria Municipal de Cultura, Esporte e Lazer de Mauá, já nasceu deformada, na “Reforma Administrativa” que “enxugou a máquina”, criou uma Secretaria vazia de cargos administrativos e técnicos, o corte na carne atingiu a Cultura como um raio, o Museu, o Teatro, as Bibliotecas carecem de infra-estrutura mínima para funcionarem, e estão de pé graças a muita boa vontade por parte de seus funcionários, que são heróis em sua profissão.

É claro que existe uma herança maldita, e ela existe mesmo, mas sinto saudade do tempo em que as administrações do PT eram criativas para sair da crise, e ao invés de transformar seus mandatos em “muros de lamentação”, procuravam parcerias com os produtores culturais e populares. Cadê nossos deputados estaduais e federais que aparecem sazonalmente em busca de votos, que tal uma gestão junto ao governo federal para algumas ações? Quando aos prefeitos gostaria que eles fossem além de uma compreensão simplória do que é Cultura. Cultura somos todos nós, Cultura também é memória. Um povo culto é mais barato, pois não destrói nem desperdiça.

Quanto a identidade perdida ainda é tempo de buscá-la.

domingo, 30 de agosto de 2009

Entrevista - Radio UNESP FM - Progrande Perfil Literário em 24/08/2009



Entrevista que concedi ao programa da Radio UNESP FM - Perfil Literário e foi ao ar no dia 24/08/2009.

http://aci.reitoria.unesp.br/radio/perfil_literario/266%20EDSON%20BUENO%20DE%20CAMARGO%20OK.mp3

A idealização e apresentação do programa Perfil Literário é de Oscar D’Ambrosio, coordenador de imprensa da Assessoria de Comunicação e Imprensa da Unesp e responsável pelo blog http://perfilliterario.wordpress.com/ e pela página www.artcanal.com.br/oscardambrosio.

A edição de áudio é de Daniel Patire, Danilo Koga, Fabiana Manfrim e Renato Coelho, da ACI, e a produção, de Fabio Fleury, da Rádio Unesp FM

Rádio Unesp - A Unesp FM é uma Unidade Complementar da Reitoria, vinculada ao Centro de Rádio e Televisão Cultural e Educativa da Universidade Estadual Paulista. Sediada no campus de Bauru. Com potência de transmissão de 3.000 watts e antena de 41 metros, a emissora atinge um raio de 100 km, atendendo a cidade de Bauru e região, podendo ser sintonizada em 105,7 MHz.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Sobre o texto “A Ascensão das oficinas literárias - ( Folha de S. Paulo) de ERNANE GUIMARÃES NETO - DA REDAÇÃO “




http://recantodasletras.uol.com.br/artigos/1756749

Recebi o material acima via e-mail do incansável Laérson Quaresma, trovador dos bons e que sempre tem uma novidade da Internet para mandar para os amigos. Achei o texto tão interessante que repassei à alguns amigos, entre eles o poeta Jorge de Barros que me respondeu com a seguinte provocação: Interessante mesmo... E aí, você concorda com essa profissionalização dos escritores? Não sei porque, mas isso me lembra o "1984" do Orwell, com aquelas máquinas de escrever romances...

A Escola por mais que se tente o contrário, quase sempre é um grande desestimulador da criatividade, escolas para escritores me remete a uma pasteurização, tudo funcionando igualzinho, em produção em série, "máquinas de escrever romances" como na novela 1984 de George Orwell, ou coisas mais terríveis ainda, máquinas de não escrever nada de nada. Modelos e mais modelos copiados, sem qualquer inventividade. Esta coisa de escola para escritores é coisa de americano do norte, daquela cultura anglo-wasp, auto imposta para alguns, imposta goela abaixo aos estrangeiros e povos submetidos como nós, onde tudo se remete ao trabalho, ao utilitarismo, ao mercantilismo, a valoração monetária. Eles inventaram o capitalismo e convenceram o mundo que ele é bom para todos. É uma herança do puritanismo que os próprios norte-americanos odeiam, mas da qual não conseguem se livrar.

O que me dói é ver brasileiros, filhos da criatividade ilimitada, da sobrevivência exacerbada, das adaptações técnicas que superam nossa falta de tecnologia de ponta, herdeiros do multiculturalismo e de Macunaima, "pagando o pau" para esta imitação da falta de ego, da transformação da vida social em coisas estandardizadas e com gosto de linha de produção, da aversão ao sexo das sociedades patriarcais calvinistas. Como se literatura e poesia pudessem ser comprimidas em uma fórmula. Em o “Arco e a Lira”, Octávio Paz fala da impossibilidade da reconstrução do poema, dado que seu projeto arquitetônico se esvaece quando pronto. Cada poema é único em si, e se não for, não terá como conter a poesia.

Sou um grande defensor das oficinas de criação literária pela possibilidade da rebeldia, do anarquismo, como espaço de convivência, como espaço de experimentação e de troca de idéias. Estou estudando Pedagogia para entender o fenômeno que é a escola e a educação. Mesmo dando oficinas de criação literária, nunca acreditei em se aprender criatividade, ou se ensinar como escrever, o que podemos é dar dicas de caminhos que já foram seguidos. Não existe maior fermento para a criação literária que a leitura contínua de tudo o que nos cai às mãos, de alta-literatura à receita de bolo. Criatividade é uma coisa que se tem, como ética e ou caráter, o que podemos fazer é estimulá-la. Resgatar o que a educação, que não é educação, massacra em nossas crianças. Sonho com o momento em que a aquisição de cultura e de conhecimento não sejam estranhas entre si.

A poesia felizmente é maior que tudo isso.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Meu poema "trinta e sete rosas" foi classificado no II Concurso Nacional de Poesias Cabeça Ativa.






Meu poema "trinta e sete rosas" foi classificado no II Concurso Nacional de Poesias Cabeça Ativa. O poema está entre os 12 selecionados que terão seus poemas publicados e figurará no mês de fevereiro do Calendário Poético 2010 produzido pelo grupo "Cabeça Ativa - Produções culturais." (www.cabecaativa.jex.com.br)

trinta e sete rosas



Edson Bueno de Camargo







trinta e sete rosas

explodem para o sol



luzem o branco de dunas

ventre de sal corrosivo

fantasmas das velhas salinas

o casco de velhos vapores



mal a haste as sustentam



zombam da gravidade

esperando a gravidez

sexo esbelto e formoso

em busca da fecundação

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Pequenos suicídios.

Lêmingue - Lemmus lemmus


“...pude comprovar a eficácia da nostalgia como uma forma de suicídio simbólico...” – Marcelo Ariel



Esta fala do poeta Marcelo Ariel me fez repensar meus pequenos suicídios, aqueles que cometemos todos os dias para poder continuar vivendo. Uma dose a mais de gim. Um pouquinho a mais de comida que alimenta nossa obesidade. O esquecimento seletivo do remédio para o controle da pressão arterial. Os adiamentos intermináveis de nossos sonhos, para por fim nos descobrirmos velhos demais para sonhar. O esquecimento do que somos de fato, para vivermos uma vida artificial e que não nos deixa satisfeitos, mesmo porque, é este o objetivo da sociedade de consumo e midiática. Tenho cometido tantos suicídios em doses homeopáticas, que talvez um dia nem seja necessário o último ato de malabarista neste picadeiro que é a vida. Ao soltar os malabares, eles flutuarão no ar como por encanto.

Tem momentos e dias em que mergulho em um banzo que não tem mais fim, em uma tristeza besta. Deixo-me submergir em uma nostalgia patológica. Olho as coisas do passado mais recente, e me pego chorando por coisas que nem foram tão importantes assim. Minha filha outro dia me falou que andava chorando até em propaganda de celular. Já algum tempo, chorei copiosamente com o trailer do filme “Olga”, nada mais emblemático que isso. Pareceu-me nossos laivos revolucionários da juventude tão patéticos, diante desta mesmice e mar de mediocridade que virou o pensamento humano. Salvando-se honrosas exceções, a maior parte das pessoas entrou em um processo primata de auto preservação, em que muito pouco importa o poético. Não há tempo para contemplar. Até o amor entrou na agenda com caráter de urgência.

É preciso ressignificar o motivo da existência do ser humano logo, ou cairemos em um marasmo eterno, quando descobrirmos a futilidade dos carrões, roupas de grife, e toda a parafernália que fazem tão felizes os novos ricos, e deixam ouriçados a gentalha dependurada na geral do mundo. Vamos descobrir que é tudo fantasia do carnaval passado, brilhou enquanto estava na avenida.

Mas nem tudo é só o mal. Nostalgia também é a sensação de que os tempos que passaram foram melhores que os atuais, é uma tristeza leve e prazerosa, de lembrar de coisas do passado, que nem sempre aconteceram mesmo. Quase sempre as mentiras são muito mais saborosas que a fruta da verdade. É lembrar da cidade onde nascemos, ou até de um balanço de pneu que havia no quintal dos fundos da casa de nossos avós. Nostalgia é banzo com dengo. Dormir na rede curtindo uma melancolia. É sentir saudades do bonde da Lapa, sem nunca ter tomado este bonde, ou qualquer outro bonde.
Algo assim como cheiro de bolo de fubá e café feito na hora, quando estamos amarrados no meio do trânsito ou a quilômetros de um lugar amigo.

Existe um estudo em que as pessoas lembram de seu passado como uma coisa boa, mesmo os que sofreram privações. Algo como um mecanismo de defesa. Já percebi que isto pode ser uma questão de idade. Quanto mais velhos ficamos, nos tornamos menos auto-críticos e mais condescendentes com nossas mazelas juvenis. Quanto mais o tempo passa, menos enxergamos o que aconteceu, e lembramos do que achamos que aconteceu. Mas não necessariamente. Somos igualmente tolos em qualquer idade. O que quis dizer é, que a perspectiva é outra. Quanto mais distante do fato, nossa percepção fica diferente. Um mal acontecimento se ameniza. Um grande prazer não tem tanta importância. Lembramos mais da dor, porque a dor é mais profunda na pele.

Este presente eterno em que parece que vivemos nos dias de hoje, me perturba e deprime mais que a nostalgia do passado. Mesmo porque o passado da nostalgia é o idílico. Nunca existiu de fato. Como dizia o Tatarana em “Grande Sertão Veredas” de Guimarães Rosa, "Me lembro de coisas que ainda não aconteceram." No entanto elas estão aí a nos perturbar. Ou por fim, a grande tolice é pensar que estamos certos porque estamos mergulhados na poesia. E como os índios jovens e suicidas do Mato Grosso, talvez queiramos o Paraíso ou Nirvana logo, queiramos um mundo onde não sejamos nós as quimeras. Onde não sejamos quasímodos curvados pela palavra. Loucos queremos que todos sintam a nossa dor, quando na verdade a dor dos outros é que sentimos. A poesia é apenas um jorro desta ferida narcísica que carregamos desde a invenção da lírica e do humano, e cremos que será curada apenas com a pena de morte auto-imposta.

Talvez estejamos escrevendo nosso testamento em cada poema. Cada poema seja uma pequena carta suicida.