terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Uma insondável proposta de intolerância e violência

Está circulando pela Internet uma apresentação PPS (Onde deus estava no 11 de setembro?) meio assustadora e profundamente etnocentrista, onde Anne Graham, filha do reverendo Billy Graham, diz que o 11 de setembro americano aconteceu, entre outras coisas, porque deus foi expulso das escolas americanas e os pais não surram mais os seus filhos, e como o bom e velho Jeová é vingativo, permitiu que fanáticos religiosos destruíssem os prédios de Nova Yorque (afinal, a Al Quaeda não está a serviço de deus?). Não há menção aos outros onze de setembro, como a explosão do Krakatoa que matou mais de trinta mil pessoas oficialmente, já que nunca foram contados os nativos mortos que podem ter chegado a cem mil, ou o onze de setembro chileno, que gerou uma ditadura cruel fomentada pelos americanos do norte, e que matou também algo em torno de trinta mil. Imagino que como um matou asiáticos incréus e o outro latino-americanos comunistas, deus não fez conta destas mortes. O texto é bem escrito, e aparentemente bem intencionado, mas carrega algumas mentiras grossas, por exemplo o filho do Dr. Spock, Benjamim (não é o vulcano de Star Trek) não se suicidou, seu neto esquizofrênico, saltou de um prédio. Muitas vezes estes textos religiosos incitam uma coisa que para mim está fora de cogitação, usar as escolas laicas para difusão da religião, religiões monoteístas, que seja bem, claro. Isto no fundo no fundo, traz uma insondável proposta de intolerância e violência.


Sou de um tempo em que éramos disciplinados o tempo todo, sofri todo o tipo de violência física e psicológica, tanto em casa como na escola, demorei muito tempo para me reconciliar com meus pais, sempre vejo a escola como um lugar opressor, como Pierre Bourdieu. Deixei de ir à igreja assim que tive autonomia, com meu próprio dinheiro no bolso pude ser dono de mim mesmo. Sou totalmente não religioso, a religião não faz parte de minha vida ou rotina, só entro em igrejas em casamentos e batizados, pois sou muito social com os amigos e gosto de comemorações, em outros momentos evito até passar na porta. Por outro lado, sou estudante tardio de pedagogia, entender a educação oficial, talvez me ajude. Sempre gostei de estudar, sempre odiei a escola.




Criei minha única filha com total liberdade, nunca a disciplinei de forma severa, mas lhe transmiti valores éticos. O assunto religião em minha casa nunca foi tabu, minha sogra uma pessoa religiosa e de uma fé inabalável, tinha toda a liberdade de passar seus conhecimentos para a neta. Existiam coisas que se podiam e coisas que não. O limite para a liberdade é a auto-preservação e os direitos humanos próprios e dos outros, portanto quando educamos crianças existem coisas que são negociáveis, como qual a roupa que quer usar ou comida que quer comer, e outras que não se discutem, crianças no banco de trás do carro, no cadeirão; não vou dar minha arma carregada para brincar com os amiguinhos. Engraçado que minha filha é uma pessoa bastante religiosa, pois escolheu seus próprios caminhos. Eu por minha vez, morrerei agnóstico, pois tive meu momento de me reconciliar com a religião, dizem que quando enfrentamos a morte cara a cara nos é revelado a nossa verdadeira convicção, pois bem, passei por este momento e não senti qualquer apelo ou força sobrenatural.


Tenho amigos cristãos, e mais que isso, minha companheira é uma cristã convicta, são pessoas tão certas de sua fé, que conseguem conviver com as diferenças sem se sentirem ameaçados. A própria palavra tolerância é complicada, pois implica em tolerar a existência do outro, temos que pensar em coabitação e alteridade. Pessoas éticas e com valores humanos, farão as coisas certas, não importa sua fé. Em especial as pessoas que exercitam a compaixão e são sensíveis a dor, a perda do outro.




Gostaria que houvesse um ponto de equilíbrio entre a tortura que sofri em minha infância, onde deus era um monstro cruel e perseguidor, e esta total ausência de valores que vemos na garotada de agora. Um mundo estranho em que vivemos, pois conhecidos meus que levaram os filhos na igreja tiveram problemas de drogas com os filhos, e minha filha se formou na faculdade antes da maioridade. A verdadeira liberdade, a que implica em ser responsável por si mesmo, quase sempre resulta em pessoas que são auto-reguláveis. Quando as pessoas são deixadas a própria sorte, e isto não é liberdade, é abandono, gera as mais inefáveis conseqüências. “Mas os pais deram de tudo para aquela criança e ela se tornou um bandido”, deram tudo menos atenção e carinho, existem estudos que comprovam que crianças negligenciadas pelos pais desenvolvem problemas psicológicos, o que o senso comum chama de defeito de caráter. Não sei porque, mas pais muito preocupados com a religião cuidam muito mal de seus filhos.


O que mais me orgulho de ter passado para adiante foi a sensibilidade para a arte. Sempre levei minha filha, sobrinhos e agregados, a museus, exposições de arte, cinema, caminhadas por parques, sempre tivemos intermináveis conversas, e apresentei-lhes os livros muito cedo, antes mesmo da alfabetização. Confesso meu crime, também lhes apresentei a poesia, mas isso desconfio que eles teriam descoberto sozinhos.

Um comentário:

Eliana Mora (El) disse...

Se todos os 'crimes' fossem como o teu...oh, mundo ideal!


beijos e abraços,

El