sexta-feira, 25 de junho de 2010

Entrevista no blogue do Marcelo Novaes - Marcelo conversa com Édson Bueno de Camargo

 Postagem original: http://notaderodape-marcelo-novaes.blogspot.com/2010/06/marcelo-conversa-com-edson-bueno.html#comment-form

Marcelo conversa com Édson Bueno de Camargo



MN
: Édson, como você canaliza a tua "natureza indômita e selvagem" para a poesia? Afagar os pelos de uma lagarta de fogo queima tua própria mão?



EB: Acredito que a civilização domesticou praticamente todos os instintos humanos. O que em geral chamamos de selvageria: genocídios, homicídios, violência, roubo, estupros, não são mais que manifestações bem humanas e próprias dos “civilizados”, presentes em todos os momentos e movimentos civilizatórios da espécie humana. Existem evidências arqueológicas da prática de limpezas étnicas e genocídios no período neolítico. Há indícios que havia outros humanos que foram dizimados por nossa espécie. Portanto, a verdadeira "natureza indômita e selvagem" deve se manifestar na compaixão, na afeição e na ternura, em face da possibilidade do encantamento, e não pelo alinhamento à ordem estabelecida. A poesia por não apresentar um valor de face, está fora do grande plano civilizador e dos grupos econômicos, sendo assim, torna-se algo que em si própria já é uma rebelião. A rebelião não quer instalar uma nova ordem, a rebelião é a mãe do caos, a poesia também. Em paralelo, a poesia segundo Otávio Paz em sua obra “O Arco e a Lira” é o que nos torna humanos de fato, e o mesmo autor condena a civilização ao seu fim se a poesia desaparecer. É paradoxal, mas não é.


O caminho natural para o poeta é a contemplação, mas o poeta também é um animal de seu tempo, então o encantamento pode se dar em condições que aparentemente não conduziriam ao “belo”. A arte pode encontrar o seu caminho junto às coisas cotidianas, corriqueiras e comuns. Como nos diz a poeta russa Anna Akhmátova, ela pode estar no lixo ou no mofo escondido na parede. Ou nas lagartas de fogo que eu e meus pares da época temíamos tanto na infância, pois queimam como fogo, dão febre, criam ínguas e em pessoas mais fracas podem levar até à morte. Para mim, a experiência com o poema deve ser algo assim, nada chocho, nada morno, se não queimar não aconteceu. A poesia ou é uma questão de extremos, ou não se manifesta. Mesmo um kai-kai de Bashô, tem que nos deixar estupefatos com sua simplicidade e condensação de significados. Tem de ser uma experiência única.



MN: Qual a importância do que não vemos para constituir aquilo que dizemos? Há algum lugar para o Sublime na fala? Ou estará o Sublime mais ao alcance das outras Artes & Ofícios?



EB: Costumo dizer para pessoas que passaram por minhas oficinas, que vivemos em vários mundos, como se os lugares fossem uma sobreposição de muitas realidades distintas, mas entrelaçadas entre si. Passaremos milhares de vezes por um lugar, sem nos darmos conta de nada diferente, até que um dia sem mais nem menos, reparamos em uma crisálida presa ao galho de uma árvore, e assistiremos o nascimento de uma borboleta, ao assistirmos esta metamorfose com os olhos do descobrimento, mudamos nós também. Como em um processo alquímico. Um novo mundo se revela aos que o buscam. Este sempre permanecera oculto a quem não o quer enxergar. É preciso ver o mundo cotidiano com os olhos de estrangeiro, ver cada coisa como se fosse a primeira vez, e depois esquecer, para nos deslumbrarmos novamente.


Ver é uma questão de treino, o que não vemos está ao alcance de nossos olhos o tempo todo, a poesia está presente nas coisas, colocar esta visão do extraordinário no ordinário, é que faz algumas pessoas poetas. O grande problema é que depois de enxergarmos o invisível, não é possível voltar atrás, o que pode ser a fonte de grande sofrimento.


O Sublime se manifesta o tempo todo, todas Artes e Ofícios tentam capturá-lo, para mim isto é a poesia. Uma fotografia pode ser uma mentira, ou o realce de algo obscurecido, e revelado quando separado de sua realidade. Há poetas que não escreveram uma única palavra, o são, e isto basta, outros viciados no verbo, como eu, escrevem o tempo todo tentando por em palavras uma experiência muito pessoal, só quando o leitor tomar posse de nossa obra ao lê-la, que de fato este intento é alcançado.


MN: A estética é confortável em alguma instância ou momento, ou ela é irmã da inquietude?



EB: Faço minhas as palavras do poeta Mario Quintana, o conforto da estética é o fim da poesia, vira método, vira fórmula, é esteticamente bonito e palatável, mas não tem alma. Situações confortáveis são perigosamente domesticadoras, um tubarão perde seu instinto de caça se alimentado na mão por duas semanas, depois disto, solto na natureza morrerá de fome. Um poeta sem instinto, será um ótimo cão de guarda para livrarias, mas será apenas a sombra do animal do passado.


Mas há o perigo oculto, que com a desculpa da inquietude não se faça nada consistente. Um artista, mesmo que para esculhambá-la, tem de ter o domínio e o conhecimento da técnica. Para que sua obra seja de fato autoral, devemos saber se não estamos nos repetindo, ou caindo em um simplismo que nada tem de útil.


A inquietude não pode ser desculpa para falta de qualidade, de trabalho, de necessidade de conhecimento.



MN: Sobre quais autores você gostaria de jorrar a luz de teus olhos, iluminando-os [descobrindo-os, ou redescobrindo-os] com o teu modo de ver?


EB: Sob o risco de ser acusado de bairrista, mas existe em minha cidade (Mauá-SP) dois poetas que aprecio muito, um é Macário Ohana Vangélis, uma pessoa que se tornou personagem de si mesma, dono de uma estética anárquica e totalmente livre. Há uma grande força de expressão em seus contos e textos, que caminha entre o poema e a prosa poética. Outro nome que me vem à mente é Jorge de Barros, uma pessoa jovem, com uma alma antiga, dono de poemas que me causam uma boa inveja, ambos carecem de um pouco de disciplina para que de fato construam uma obra.


Existe um poeta de Bauru o José Carlos Brandão, que está a bastante tempo na estrada, e que faz uma poesia de uma beleza rara. E muitos outros, que terão de me perdoar, pois não caberiam tantos nomes.


Contrariando o coro dos descontentes, tenho encontrado muita gente boa escrevendo por este Brasil afora, não vou fazer uma lista, mas há mais gente dentro da invisibilidade do que fora dela. Outra coisa interessante é a capacidade de descobrirmos poetas que podem estar obscurecidos, por estarem fora da mídia. Aconteceu algo assim comigo com a poeta Anna Akhmátova, bastante conhecida, mas que não tinha chegado aos meus olhos e ouvidos, para mim foi uma grande comoção. E assim acontece com tantos outros, ou nem tanto outros, passei a ler Drummond, com mais atenção depois que vi um grupo de universitários detratando sua poesia, e descobri um poeta emocionante e inspirado. O poeta Lau Siqueira, em certa ocasião me mandou um poema de Else Lasker-Shüler, que até então não conhecia, e descobri uma poeta com imagens desconcertantes, com uma obra em que tive de mergulhar. E por ai vamos indo.



MN: Tua poesia é orgânica? Sendo ela orgânica ou não, defina-me o que seria uma poesia orgânica, pra você. As palavras brotam do corpo?



EB: Existe uma razão matemática no que chamamos crescimento orgânico, esta se chama Proporção Áurea, e foi usada à exaustão pelos renascentistas, para criar harmonia em suas obras. Ora se existe uma razão matemática para o crescimento das plantas, deve existir uma ordem natural para as coisas, nada surge do nada.

Imagino que uma poesia orgânica deve ser algo como uma brotação, a partir de um rizoma surge um broto, que cresce, respeitando uma ordem matemática, e se torna uma árvore ou coisa que valha.

Mas podemos pensar em orgânico como algo que vem do corpo, órgãos, algo como a medicina grega acreditava, que os fluidos determinassem o humor, então a poesia orgânica deve vir do fígado, cuja biles produz a melancolia. Os românticos do século XIX tinham isto em alta conta.

No entanto existe mais uma maneira de se ver esta questão, a de que os poetas podem ser construtores do “tempo do sonho”, ao escrever a poesia estariam os poetas em contato com a raiz mágica do mundo, e conectados à humanidade, seriam a sua voz. O crescimento orgânico seria, portanto, referente às raízes invisíveis da terra.


MN: Tua poesia tem algo de onírico? Defina-me poesia onírica, por favor.


EB: Para os antigos, o sonho era uma parte da realidade, tão palpável quanto as coisas visíveis, Jung fala de uma consciência coletiva, a qual podemos conectar em determinados momentos ou condições. Escrevo muito por insight, sem mais nem menos, me vem um verso que me incomoda, e este incômodo vai de um crescendo que necessito escrever o poema. A palavra me assombra tanto quanto incomoda. Mas não acredito que haja algo sobrenatural em atuação, existem forças que desconhecemos completamente, mas estas são tão naturais como as leis da Física que regem nosso mundo.

Uma poesia onírica se dá mais pela linguagem do que pela origem, a língua do sonho não é a mesma que usamos cotidianamente, ela é mais desordenada, ou melhor, tem uma ordem e lógica própria e pessoal de cada um. A construção das frases e a sobreposição de palavras, é mais fragmentada, não se atém a um único assunto, e estes se misturam. O que parece caótico em um primeiro momento, tem uma ordem, que pode ser percebida ou não, é preciso separar todas as vozes do poeta para compreendê-lo. Isso só é possível no mergulho, na leitura do que o poema está querendo dizer para você, e não no que diz no sentido lexical e da sintaxe. No poema a palavra não é uma simples nomeadora. No onírico a palavra constrói as coisas, na medida em que é falada.

Não sei afirmar com certeza se minha poesia tem algo de onírico, diria que é fragmentária e se compõe de imagens poéticas, comungo com os xamãs que crêem que o sonho é só mais um aspecto da realidade, creio que a poesia é uma forma de traduzir isto.



MN: Algum autor te alimenta, ou afaga tua pele indômita?


EB
: Que se pese já ter ouvido que ecletismo é desculpa para falta de gosto, tenho lido muito e de tudo. Descubro a cada dia que há algo novo, há uma pessoa nova para nós, mesmo que já esteja à luz do mundo a muito tempo. Contrariando os críticos de tudo e de todos, há uma moçada nova muito boa por ai, e os velhos sempre estão a nos dar lições novas, um não vive sem o outro. Quanto mais mistura estética melhor.

Existem muitas influências, e elas estão acontecendo ainda. Quando comecei a escrever, um poeta quase naïf chamado Aristides “Castelo Hanssen” foi uma grande motivação; Cláudio Willer nas oficinas da Casa da Palavra de Santo André, no momento certo me apresentou os poetas surrealistas, em especial os portugueses, Mario Cezariny e Herberto Helder. O poema “O amor em visita” de Herberto Helder foi um divisor de águas em minha poesia. Não posso deixar de citar Mario Quintana, nem tanto na forma, mas na alma. Cecília Meireles, Ferreira Gullar, João Cabral de Melo Neto, e uma infinidade de nomes aos quais não estou fazendo justiça. Leio muito a garotada que está chegando, muitos blogues e revistas na Internet. Na minha opinião, a poesia nunca está completa ou acabada, é um processo, e as possibilidades de influência são infinitas, acredito que a literatura é intertextual, se faz de muitos fazeres.


MN: O horizonte-da-morte [ou a morte-no-horizonte] ajuda a poetar, ou atrapalha?


EB: Existe um poeta de Bauru, José Carlos Mendes Brandão, que tem uma frase muito boa para isso, “escrevo poesia porque vou morrer”, o poeta convive com sua extinção com mais detalhamento que as pessoas presas ao cotidiano. A morte é a única certeza absoluta, nascemos grávidos de nossa própria morte, alguém já disse. A imortalidade só é possível pela arte, as pessoas morrem, suas obras têm o poder de atravessar o tempo.

O horizonte-da-morte, não só ajuda a poetar, como também é um tema muito bom e recorrente. É a velha dicotomia entre as pulsões, vida e morte, Eros e Tánatos não são irmãos por mero acaso. Penso que depois da própria poesia e os poemas metalingüísticos gerados nesta forja, a morte é o assunto preferido dos poetas. Talvez, no meu caso, os melhores versos que tenha escrito em minha vida se refiram à morte.

“que ser homem é carregar a aspiração
de sempre retornar a úteros escuros
descer às mais profundas fendas e cavernas
e que morrer é se vestir de terra
para que uma mãe telúrica venha nos afagar os cabelos”




MN: Obrigado, Édson.

3 comentários:

Luiza Maciel Nogueira disse...

Boa entrevista!

betina moraes disse...

caríssimo,

uma entrevista conduzida de forma excelente pelo sensível poeta marcelo novaes que soube destacar as maiores importâncias do seu trabalho. parabéns aos dois.

abraços.

Jorge de Barros disse...

Meu caro Pajé!
Obrigado pela lembrança e pelo "puxão de orelha".
Gostei mais dessa entrevista do que de outras suas, mérito do bom entrevistador que soube te desnudar com mais cuidado.

Abraço!