segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

“A balsa da Medusa.”



Recentemente me vieram à lembrança as palavras proferidas por Adélia Prado em Paraty em 2006 (muito estranhamente, em um evento muito comercial e midiático, como a Flip), sobre a precariedade ontológica em que vivemos neste mundo. Para a poeta tudo se esvaece como uma neblina ao Sol. Tudo é muito provisório, nada é sólido o suficiente para que o tempo não corroa. As coisas estão mal amarradas, flutuamos em um mar de incertezas, afora aqueles que vivem mergulhados na ilusão de que bens materiais significam alguma coisa, as pessoas que conhecem a verdade sabem que isto que chamamos realidade, é apenas uma das faces dela.

Ouvindo as narrativas dos sobreviventes da “Balsa da Medusa”, uma forma que os náufragos de um desastre marinho encontraram para tentar sobreviver, o pintor francês Théodore Géricault (1791-1824), pintou, em 18 meses de trabalho ininterrupto, o que veio a ser a sua obra prima, em óleo sobre tela: “A balsa da Medusa.” Para isto criou modelos da balsa em estúdio e chegou a se amarrar em um mastro em meio a uma tempestade, para sentir o que de fato sentiram as vítimas. Observou cadáveres e os olhos profundos dos pouquíssimos que viveram para contar a história. É esta tela que escolhi para abrir este novo blogue. Como Robinson Crusoé percorremos a praia a catar o que o mar nos reservou. É com o que o mar rejeita que construímos nossas vidas. Foi assim muito cedo para mim, o mar nada me devolveu.

Estamos em uma balsa à deriva, naufragamos em todos os fracassos diários de nos manter à tona. Estão em nossos olhos as cicatrizes dos desamores e decepções com a humanidade. Será que merecemos mesmo a sobrevivência como espécie, não poderemos honrar nossos ancestrais que fizeram tantos esforços para que chegássemos até aqui?

Assim como Géricault, os que escrevem poesia tentam em vão colocar em palavras aqueles elementos efêmeros que se desvanecem com a luz. Olham para o fundo dos olhos dos que sobrevivem à dor, e mesmo assim sorriem. Elias Canetti fala que os poetas devem sentir a dor da humanidade para que se resgate a compaixão. Octávio Paz afirma categoricamente que a humanidade, ou aquilo que chamamos civilização, desaparecerá com a morte do último poeta. Seremos autômatos reproduzindo gestos e configurações ao espelho de nossas máquinas. Finalmente o homem e a máquina serão uma coisa só.

Enquanto houver poesia, não.

4 comentários:

Espartana disse...

Essa idéia de 'tudo muito provisório' lembra a raça prevista por Hesíodo, após a do ferro, a qual o escritor Viktor Salis tem chamado de "idade do plástico", e o sentido de que 'nada é sólido o suficiente para que o tempo não corroa', além de lembrar a célebre frase (acho que de Karl Marx) de que "tudo o que é sólido desmancha no ar", aparece nos livros do Zigmunt Bauman ("amor líquido", "vida líquida" etc). Na minha monografia da pós em psicologia eu escrevi sobre essa idade do plástico comparando-a com o mito de Dionísio, que vive renascendo e se recriando. Então foi muito bom ver que a Adélia também versa sobre isso. =))

Edson Bueno de Camargo disse...

Adélia Prado como poeta fala mais de suas experiencias uterinas, pois as mulheres tem o dom da poesia duas vezes, o ato criar com a palavra e o de dar a vida, do que filosóficas. Não sei se ela tem algo escrito sobre isto, ouvi da boca dela, em uma palestra que deu em Paraty, onde chorei copiosamente, e ainda hoje me vem lágrimas aos olhos quando lembro.
Bachelard já dizia que o poeta tem o que ensinar ao filósofo, pela capacidade de síntese.
Nem sabia este modesto aprendiz de poeta que carregada tanta sabedoria em minhas palavras. são elas, as palavras que mandam em mim. A poesia tem me tomado como seu há muito.

Evoé.

Ronaldo Lírio disse...

Acreditar que as coisas podem ser diferentes é fundamental para a manutenção da própria existência
Se está muito enfermo, não se desespere.
Confie seus temores e aflições ao Poder Supremo.
Tenha fé inabalável e sem limites de que tudo vai dar certo.
Faça um exame profundo de sua própria pessoa, e encontrará no âmago de sua personalidade, a resistência que o Criador ali colocou, quando lhe deu vida.
Ronaldo Lírio.

Ronaldo Lírio disse...

Acreditar que as coisas podem ser diferentes é fundamental para a manutenção da própria existência
Se está muito enfermo, não se desespere.
Confie seus temores e aflições ao Poder Supremo.
Tenha fé inabalável e sem limites de que tudo vai dar certo.
Faça um exame profundo de sua própria pessoa, e encontrará no âmago de sua personalidade, a resistência que o Criador ali colocou, quando lhe deu vida.
Ronaldo Lírio.