quinta-feira, 5 de março de 2009

Hoje a poesia não teve como sair para a rua.



Li uma notícia hoje no jornal Diário do Grande ABC, do qual sou assinante, que me deixou indignado. A de que o advogado da Arquidiocese de Olinda pediu que a mãe da menina estuprada pelo padrasto seja indiciada por aborto ao permitir a retirada dos fetos, pois desgraça pouca é bobagem, a menina estava grávida de gêmeos. Esta afirmação para mim, é no mínimo homicida, uma vez que a condição da gravidez fatalmente levaria a criança à morte. E mesmo que pudesse ser levada a contento, o organismo de uma criança de nove anos não está preparado para algo tão perigoso e complicado que é uma gravidez. Não gostamos de falar isso, mas apesar de algo sublime, a mulher fica muito frágil e sujeita a questões de risco à sua saúde. Além de todas as questões psicológicas envolvidas.

Passou da hora do aborto deixar de ser crime no Brasil, tirando algumas pessoas hipócritas e fanáticos religiosos, qualquer pessoa que tenha uma inteligência razoável, é favorável à sua legalização. É absurda a maneira com que a Igreja Católica interfere na vida dos cidadãos. É estranho que não vi nenhum pronunciamento dos mesmos quanto aos atos libidinosos do padrasto. O estupro para estas pessoas é um mal menor diante do aborto. Vide a quantidade absurda de padres estupradores de crianças que se vê pelo mundo, Hollywood fez até um filme sobre o assunto que estava na premiação do Oscar. O fato de que esta criança perdeu a chance de ter uma vida normal daqui para diante é irrelevante para estas pessoas.

Gostaria de saber qual o problema destes cristão fanáticos com a mulher. Elas foram torturadas, queimadas e execradas em praça pública; lhes é negado o direto de estar comandando uma congregação; e ainda por cima tem de carregar em seu ventre os frutos da violência sexual a que muitas são submetidas. Em caso de estupro o aborto no Brasil é permitido, mas as mulheres ficam sujeitas à vontade de magistrados, em sua maioria absoluta homens e de classes sociais privilegiadas, que carregam para suas arbitragens os seus preconceitos pessoais. Muitos desfavoráveis à mulher e contra o aborto. Ainda que este caso chegou á mídia, quantas mulheres neste país além da violência, tem de conviver anos com o abusador, ter filhas dele, e viver o terror dessas também serem abusadas. Existe uma violência latente contra a mulher em nossa sociedade ibero-americana, e qualquer tentativa de libertação deste jugo, é punida com extrema severidade. Mutilações, surras, estupro, assédio moral e também a morte, esperam pela mulheres que se mostrarem rebeldes.

Existe a violência sutil, que faz as mulheres se acreditarem imperfeitas, a mídia falando de uma falsa epidemia de obesidade, que na verdade não tem nenhuma base científica, além de uma indústria toda voltada para ganhar muito dinheiro com isso. Mulheres normais e belas se submetem a todo tipo de tortura que chamam tratamento médico, usam roupas desconfortáveis e tem modelos inverossímeis a seguir. Mulheres que são tratadas no computador servem de referencial às mulheres reais. A infelicidade é uma poderosa arma de opressão. A sociedade de consumo não gosta da mulher e nem do feminino. A mulher ideal é aquela boneca de vinil japonesa, que não fala, não reclama, está sempre disponível e nunca mostrará os sinais do tempo, nem será capaz de pensamentos autônomos.

E o que tudo isso tem a ver com a poesia. Não sei. Só sei que deveríamos achar um modo de viver o poético em nossas vidas. A poesia é a rebelião contra a moral e os bons costumes. O verdadeiro poeta deve saber como é a dor do outro. O estupro é a total negação do outro, apesar da dor física, ele também é moral, é anti-ético. É a destruição total dos laços de confiança, não é possível conviver com a civilização. É pior que a barbárie, é uma reação infantilóide contra as travas éticas que devem nortear a nossa vida. É o mais profundo egoísmo.

Hoje a poesia não teve como sair para a rua.

A defesa da vida de um feto não pode perpassar pelo risco à vida de uma criança que o carrega.

3 comentários:

Leticia Brito disse...

Pois é, Edson, ser mulher nesse modelo de sociedade é complicadissimo. Eu mesma quando fiquei grávida do meu filho e não quis casar fui impedida de comungar na missa por estar vivendo em pecado. Hora, se eu escolhi ter meu filho mesmo com dificuldades não deveria ser considerada um bom exemplo?
Não, ainda hoje sofro com os homens que ao me conhecerem pensam que eu sou do "tipo fácil".
No caso dessa menina não me surpreendi com a decisão da igreja, afinal, eu bem sei qual é a opinião dela.

Edson Bueno de Camargo disse...

É horrível a origem deste pensamento, "mulheres de tipo fácil", ouvi uma especialista da USP falar que isto se referia às meninas estupradas, pois se isto aconteceu é porque elas eram "quentes". (Um total absurdo.)
Você mistura uma sociedade patriarcal, com um machismo como forma de opressão, inclusive econômica, e de estrutura fortemente escravista, como resultado a mulher será uma coisa, e se rebelar, deverá ser destruída para não contaminar as outras.
Isto tudo me enoja, já deveria ter deixado de existir estes pensamentos há muito tempo.

Rit@Schon disse...

Muito bem colocada a questão Edson.
Há muita hipocrisia nesta questão de defesa da vida. Campanhas e movimentações contra o aborto, e as tantas criznças que nascem e vivem em estado de miséria destinadas à morte, penso que isso é mais criminoso do que o aborto.